quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Legítimo: filmado em solo escocês, com ator escocês falando sobre uísque escocês.

Num único plano de quase seis minutos, filmado com a RED e dirigido por Jamie Rafn, o ator Robert Carlyle conta a história de 200 anos de tradição da marca Johnnie Walker.
Um detalhe: o take usado no filme é o de número 40.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Publicidade lynchiana


Estranheza na área: a partir de 8 de dezembro, a Caixa Cultural vai passar em revista uma das filmografias mais sólidas do cinema americano na mostra "David Lynch - O lado sombrio da alma". Serão exibidas 40 produções assinadas pelo diretor de "Veludo azul", incluindo os 28 filmes publicitários que o cineasta pilotou entre 1988 e 2002. Alguns desses comerciais, selecionados pelo curador do evento, o crítico de cinema Mario Abbade, contam com a participação de estrelas como Benicio Del Toro, Gerard Depardieu, Heather Graham e os personagens do seriado "Twin Peaks", exibido aqui pela Rede GLOBO em 1991 e já disponível em DVD. Lynch utiliza seu estilo para vender produtos como jogos eletrônicos, perfumes, macarrão, café, programação de canais de TV a cabo e carros.
- Assistir a esses filmes publicitários é uma ótima opotunidade para o público conhecer um outro lado de David Lynch - diz Mario Abbade, curador da mostra. - O interessante é que ele não muda seu estilo, mesmo quando está vendendo um produto corriqueiro como café.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Fred Coutinho: nada como visitar um país amigo.

O redator Fred Coutinho lembra de uma viagem a Foz do Iguaçu, com pinta de roteiro cinematográfico.

Lembrando agora parece um filme. Na hora também parecia. Talvez fosse um filme que aconteceu, um ensaio à procura de um roteiro, ou um laboratório onde atores levavam às últimas consequências o seu ofício. Enfim, eu acordei e estava em Foz do Iguaçu. Acontece nas melhores famílias: um dia você acorda e está em Foz do Iguaçu. Já acordei em lugares melhores e em lugares piores e pouco se me dá acordar aqui ou lá. Era vagamente isto que eu pensava enquanto descia para tomar café no hotel. A segunda coisa que pensei naquela manhã assim que entrei no saguão foi que meu nome era Fred, porque alguém insistentemente chamava: ei, Fred, Fred. Era um casal daqueles velhos tempos em que um casal era um homem e uma mulher. Olhei para eles e meu Google interno começou a girar, girar, girar e não tão logo os identifiquei como amigos de um primo do Rio de Janeiro. Estivera com eles uns tempos atrás na casa do primo. Era um casal simpático. Eles convidaram-me para tomar café, o que odiei imediatamente, mas aquiesci. Aquiescer logo pela manhã me deu uma espécie de mau humor que iria me acompanhar o resto do dia. Seja como for a conversa fluiu rápido e logo fizeram-me o segundo convite do dia e só pelo meu adiantado estado de confusão mental matutino pude aquiescer – novamente! O convite era para atravessar a ponte para o lado paraguaio da coisa e fazer compras por lá. Ainda tentei uma série de desculpas débeis e finalmente a moça, com o melhor dos sorrisos, disse-me com boa vontade – ora, Fred, vamos conhecer um país amigo! No que foi acompanhado pelo marido – é um país amigo, Fred, vamos fazer a política da boa vizinhança e visitar nossos amigos. Sugeri racharmos um táxi – enquanto pensava que diabos era aquilo de país amigo - mas no lugar do táxi, induziram-me a pegar um ônibus. Eu fazia mentalmente as contas e cheguei à conclusão de que pelo menos as próximas seis horas do meu primeiro dia em Foz do Iguaçu estavam irremediavelmente perdidas, então entrei em universo paralelo: metade de mim entrava em torpor e pensava em outra coisa e a metade restante pagava o ônibus, pegava o troco e conversava. Sentei do lado direito, na janela, o casal atrás de mim, e eu ia assim meio de lado, falando com eles. Que estavam animados por conhecer um país amigo.Então o ônibus entrou na ponte. E parou. Havia não sei o que lá na frente, perto do motorista, e de repente o ônibus deu um tranco e o motor morreu. Ouvi algo que poderia ser um grito misturado a frases que poderiam ser em guarani e ouvi alguém dizer que era um assalto e foi mesmo simples assim. Olhei para trás e um homem com um revólver na mão pegava carteiras, relógios e jóias daquelas pobres criaturas sentadas na parte traseira do ônibus. O homem pegou todo o dinheiro do trocador, passou a roleta, roubou o casal amigo, apontou a arma para mim, um revólver, dizendo alguma coisa como “passe-me, passe-me” e o seu revólver tremia e eu dizia “calma, calma” enquanto tentava tirar do bolso o dinheiro que eu tinha – que era todo o dinheiro que eu possuía em Foz do Iguaçu. Tão logo dei o dinheiro a ele, ganhando em troca a arma apontada em outra direção, minha atenção dirigiu-se a um paraguaio – estava escrito na testa dele, paraguaio – que vinha em direção ao homem de arma na mão que tinha acabado de me assaltar e ainda estava ao meu lado no corredor; este homem caminhava para o assaltante ao mesmo tempo em que tentava inutilmente tirar alguma coisa de uma capanga marrom – era marrom, lembro bem; enquanto isso o homem ao meu lado com a arma na mão falava nervosamente em guarani algo que eu traduzi como “não abre a capanga senão eu atiro”. As coisas aconteciam simultaneamente e era como um duelo no meio do corredor do ônibus; o homem tentando tirar algo de dentro da capanga versus o homem com a arma na mão falando que atiraria se o outro abrisse a capanga. Num determinado instante da cena, o assaltante sumiu do meu campo de visão; evidentemente dera dois passos para trás e agora deveria estar sendo barrado pela roleta, e continuava a falar guarani rapidamente. Quando o homem da capanga estava no corredor exatamente ao meu lado o outro disparou. O homem da capanga desabou sentado ao meu lado, enquanto o assaltante saiu correndo do ônibus acompanhado de outros dois, que estavam na parte da frente do veículo. Eles pularam a amurada e saíram correndo por uma espécie de várzea que havia quase nas margens do rio. O homem da capanga ao meu lado, com o braço esquerdo completamente ensangüentado – e neste momento senti o cheiro doce do sangue que me acompanharia ainda por meses – levantou, e com o braço direito abriu a janela do meu lado, enfiou a arma entre minha cara e o vão aberto e, a dois palmos de mim, descarregou seu revólver em direção aos três que corriam pela várzea lá embaixo, não acertando nenhum tiro. A coisa toda desde o começo era entremeada por silêncios e gritarias, e neste momento um homem lá na frente gritou que o motorista tinha sido esfaqueado - imediatamente o vi contorcido sobre o capô - e perguntava se alguém sabia dirigir o ônibus. Os passageiros olhavam uns para os outros esperando um motorista aparecer como por encanto e de fato um sujeito magrinho segurando uma pasta se apresentou para exercer aquela função. Ele basicamente passou por cima do motorista e assumiu seu posto na boléia e mal sabia ligar o ônibus. A camisa branca do motorista se empapava rapidamente de vermelho e o sujeito nem sabia colocar o motor em funcionamento. Finalmente alguém praticamente o retirou de lá e conseguiu ao menos ligar o veículo e, depois de arranhar terrivelmente a marcha, conseguiu engrenar a primeira e saiu, aos trancos e barrancos. Eu olhei para o homem da capanga ao meu lado, perguntei se estava bem; ele virou seu corpo para mim, apertou o lugar de onde brotava o sangue e me disse em espanhol - mira, acá está – mostrando-me o lugar exato onde a bala estava, e depois me dizendo – caliente, está caliente – sem gemer, sem gritar, e até com uma certa tranquilidade para quem tinha acabado de levar um tiro no braço. Lá na frente o novo motorista fazia o melhor que podia, eu creio, e íamos mais ou menos em linha reta pelo meio da ponte até o instante em que necessariamente teríamos que parar numa das várias cabines parecidas com cabines de pedágio, mostrar documentos, aquilo tudo que eu supunha fosse praxe na fronteira de países, mas nada disso aconteceu. Havia uma cabine livre pela qual passamos sem parar sob o olhar entorpecido de três ou quatro guardas, e assim aquele ônibus dirigido por um sujeito que não era seu motorista, carregando vinte passageiros assaltados, um homem esfaqueado e outro baleado, como uma expedição que retorna de uma viagem ao redor do mundo entrou gloriosamente no Paraguai.
O que me levou a pensar: nada como visitar um país amigo.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Onde vive Spike Jonze?



Selvageria. Spike Jonze, que atualmente lota cinemas nos EUA com “Onde vivem os monstros” (“Where the wild things are”), aprendeu a dominá-la filmando publicidade. Basta ver seu anúncio para a GAP para compreender sua manha com a agressividade. Dizem que, na vida real, o diretor de “Quero ser John Malkovich” é um banana. São palavras de sua ex-mulher, a cineasta Sofia Coppola, que o retratou na figura de um fotógrafo moleirão em “Encontros e desencontros”. Bom, a intimidade é deles. Já o brilhantismo de Jonze em seu novo longa-metragem, cujo faturamento nos EUA já chegou a US$ 64 milhões, é um presente nosso. Confira a seguir o trailer da produção, que consumiu um orçamento de US$ 80 milhões. Trata-se de um dos filmes obrigatórios de 2009.
Produzido por Tom Hanks e embalado a muito pop e rock, “Onde vivem os monstros” é um diálogo personalíssimo de Jonze com o romance infanto-juvenil homônimo de Maurice Sendak, recém-lançado no Brasil pela Cosac Naify. Na telona, a partir do roteiro de Dave Eggers, o lirismo fabular do texto original vai, cena a cena, dando lugar a uma ode a melancolia. A tristeza esculpe o mundinho metade realista, metade onírico onde vive o pequeno Max (Max Records, o melhor ator mirim revelado desde Haley Joel Osment).
Max é um guri solitário, que vive mendigando afeto. Usa uma fantasia branca de animal, em trajes de traços lupinos, para chamar a atenção alheia com sua estranheza. Um dia, ao levar uma bronca da mãe (Catherine Keener, atriz-fetiche de Jonze), Max foge de casa e vai parar em uma terra imaginária, para a qual viaja em um barquinho capaz de resistir a tormentas. Nesse lugar encantado, existem monstros gigantes, com feições dignas de “Vila Sésamo”. O mais exótico desses seres atende pelo nome de Carol (o personagem é dublado em inglês pelo Soprano James Gandolfini). Carol é a mais forte das criaturas do reino mágico onde Max recebe toda a sorte de paparicos. O nome do monstro é uma espécie de metáfora: Carol é a encarnação da força vital da mãe de Max. Aos poucos, o menino vai conquistando essa força hercúlea para si, construindo um laço afetivo que arranca lágrimas e cria sequências de um refinamento cenográfico e fotográfico único.
O Jonze esteta de filmes comerciais se recria na telona, dez anos depois de sua consagração com “Quero ser John Malkovich”. É bom ficar atento para as próximas novidades desse realizador que é símbolo da pós-modernidade nos anos 2000.
"Onde vivem os monstros" estreia no Brasil só no dia 15 de janeiro.

Rodrigo Fonseca, um dos editores do Cinema Curto, assistiu em Nova York ao novo filme de Spike Jonze.


terça-feira, 27 de outubro de 2009

O Canal + mais uma vez.

Tá rolando na web mais um impecável comercial do Canal + criado pela BTEC Euro RSCG e dirigido por Matthijs van Heijningen. Sem palavras.

Canal + / The Closet from background on Vimeo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Celulares em comercial com cara de Matrix.

A MPM criou e produziu um comercial de 30" onde a vedete é mais uma vez o veterano Sebastian, eterno garoto propaganda da marca, que dança e se movimenta sobre celulares num cenário formado por milhares de aparelhos.
Clara inspiração na ousada e incensada gama de efeitos visuais e gráficos da trilogia Matrix dos irmãos Wachowsky. Só que a tonalidade verde do longa foi trocada por um elegante preto e branco no comercial dirigido pelo inventivo Jarbas Agnelli da Ad Studio, responsável também, pela produção da trilha sonora.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Maritza Caneca: filmando comerciais com olhar feminino.

Maritza e Nelson no set de "A luz do Tom"

Terra de machos, a fotografia publicitária se abriu para a delicadeza de Maritza Caneca. Assistente de alguns dos maiores diretores de fotografia do país, como Affonso Beato, Pedro Farkas, Walter Carvalho, Lauro Escorel e José Tadeu Ribeiro, Maritza já clicou dezenas de comerciais, além de ter fotografado curtas-metragens e ter trabalhado em longas de realizadores consagrados como Nelson Pereira dos Santos e Walter Lima Jr. Na entrevista a seguir, ela conta para o CINEMA CURTO como deixou o preconceito em segundo plano, apontando seu foco para a invenção.

Visualmente, até que ponto a ousadia é permitida na publicidade brasileira? Em que comerciais você ousou?
Acho que a ousadia da publicidade está relacionada à sofisticação do nosso olhar, às novas tecnologias onde podemos testar novas câmeras e procurar novos looks.
Acho que o filme do ZTE que fiz para Portugal tem essa estética do look internacional, cada filme tem o seu perfil. Acabei de fazer um clip no Morro da Providência da banda DUGUETTO – “Questão de que" no qual pude, com a estética da publicidade e a sensibilidade do olhar, sofisticar o visual do clip.

A tua experiência em cinema, que inclui colaborações com mestres como Walter Lima Jr., é marcada por passagens por produções internacionais como "Luar sobre Parador" e "O incrível Hulk". Como você avalia o interesse estrangeiro em investir em equipes brasileiras? Como foi a sua experiência com Louis Leterrier no filme do Golias verde?
Concordo quando você diz que o Walter Lima é um mestre, quando assistente sempre tive muita vontade de filmar com ele , mas não aconteceu! Quando o Pedro Farkas me indicou para fazer a segunda unidade de "Desafinados" fiquei muito feliz e honrada, foi uma experiência muito boa conviver com ele e escutar suas historias.
Já no "Luar sobre o Parador" eu fazia video assist (foi bem no começo da minha carreira), eram 5 câmeras Panavision , muitos equipamentos novos , uma equipe enorme, uma super produção, foi genial fazer parte desse filme , tive a oportunidade de filmar com Raul Julia, Richard Dreysfuss, Sonia Braga, Fernando Rey (esse atuou em todos os filmes de Buñuel e eu fiquei bem próxima dele). O DP foi Donald Mc Alpine, uma pessoa muito generosa que mantinha sua equipe sempre integrada. Com ele aprendi a trabalhar com o laboratório, acompanhando diariamente a revelação do negativo. Quanto ao "Incrível Hulk", o meu trabalho foi de operadora de câmera, com uma bagagem cinematográfica maior estava mais próxima da direção, sugerindo planos e enquadramentos.

Como é a sua experiência em comerciais de realizadores/produtores estrangeiros?
Fiz muitos comerciais estrangeiros tanto operando câmera como fotografando. É sempre muito bom, pois fazemos novos parceiros, trocamos experiências e geramos novos trabalhos podendo até sobressair no mercado internacional.

Com a Retomada, hoje a gente vê um maior número de mulheres atuando em áreas técnicas do cinema e da publicidade, em especial na montagem e na direção de arte. O que o olhar feminino tem agregado à estética publicitária?
Tento sempre buscar referencias cinematográficas, procuro sempre estudar um pouco, pesquisar, aguçar o olhar. Tenho fome de imagem, de quadros, pintura, assim vou descobrindo e formando o meu olhar feminino.

O machismo atrapalha a vida de uma fotógrafa de cinema e publicidade? Como foi a sua experiência?
Acho uma bela conquista das mulheres nessa profissão, quando comecei fazer assistência de câmera não havia mulheres fotógrafas, pelo menos no Brasil. Era um “trabalho para homens”. Escutei muito "não chama não, ela não vai agüentar..." Acho que temos um olhar diferente, talvez mais cuidadoso, delicado, um olhar feminino!

Como você avalia esteticamente a sua produção de stills? O que a sua câmera quer flagrar?
Eu tenho muito desse olhar, pois comecei no cinema fazendo o still do filme "Cinema Falado” de Caetano Veloso. Sempre fui muito ligada à fotografia, enquadramento, quando comecei não sabia da existência de um diretor de fotografia... fui indo !!! Como still você fica muito tempo parado no set esperando as coisas acontecerem, me interessei logo pela câmera, migrei!
Comecei fazendo segunda assistência de câmera, depois primeira, numa época que só havia duas mulheres fazendo. Fiquei muito tempo, pois sentia a necessidade de mostrar que eu era muito boa no que fazia.
Fiz muitos filmes... muitos comerciais, clips e documentários. Trabalhei com muitos fotógrafos consagrados, vi muitas coisas... Quando comecei a fotografar a base estava com um belo alicerce. Eu já sabia, estava no meu sangue... sou completamente apaixonada pelo que faço, digo que é minha droga, minha cachaça!
Hoje em dia ando com a minha câmera a tiracolo, pois sempre estamos no lugar certo, na hora certa com a luz certa. Tiro perfeito! Uso também a fotografia como um estudo do enquadramento x luz, sempre procurando diferentes ângulos.

Em relação à sua experiência com Nelson Pereira dos Santos, que olhares sobre o cinema um profissional herda ao trabalhar em um set com o diretor de "Rio 40 graus"?
Ter a chance de fotografar para o Nelson Pereira do Santos foi maravilhoso, um belo presente! Com a convivência acabamos ficando amigos, rolou uma bela química nessa mais nova parceria! Ainda mais um filme sobre o maestro soberano Tom Jobim, acho que agora estou bem apadrinhada e esperando novos projetos ...

Aqui você conhece o trabalho de Maritza.