Em 2002, Guy Ritchie foi um dos diretores da série “The Hire”, produzida pela BMW para distribuição por internet e comandada por diretores famosos. Dois anos antes, Ritchie, diretor de comerciais de prestígio, ensaiava seus primeiros passos no longa metragem, com "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes" e criava ali uma estilo próprio de filmar com planos ágeis, curtos e de montagem veloz e frenética. Todos os seus filmes seguem essa linha e são meio parecidos. Nem o cerebral Sherlock Holmes escapou dessa visão e agora no segundo filme da franquia o ilustre morador de Baker Street mais parece um frio ninja dublê de vidente. Dez anos depois da série da BMW, Afonso Poyart, um diretor brasileiro também nascido nos bancos escolares da publicidade lança seu primeiro longa com nítida inspiração em Guy Ritchie. O cinema sempre foi e continuará sendo a grande inspiração da publicidade. Vários comerciais de sucesso foram criados a partir de sequências ou cenas específicas de sucessos do cinema. Mas Poyart inverte isso e usa e abusa de elementos e recursos publicitários para dar forma a seu filme. Câmeras digitais como a Phantom, capaz de rodar até1000 fps em resolução full HD (1080p) filmam explosões, tiroteios e corpos que caem numa coreografia de belas imagens fotografadas por Carlos Zalasik. A mistura do "ao vivo" com animação e computação gráfica ampara um roteiro intrincado com constantes idas e vindas que careciam de um corte cirúrgico em sua edição de quase duas horas de projeção. Poyart está na sombra de Ritchie, o que é normal para um estreante, mas podia ficar por aqui e procurar outro formato numa segunda investida. Aqui você checa o trailer do filme e comerciais do diretor.
Personagens esquisitões e locações estranhas - dois "musts" nos filmes de Gus Van Sant. Neste "Inquietos", "Restless" no original, Van Sant conta a história de um garoto que não quer saber de nada na vida, largou a escola e vive com uma tia após um acidente que vitimou seus pais. O lance de Enoch (Henry Hopper) é penetrar e acompanhar velórios e, num deles, conhece a também maluquinha Annabel (Mia Wasikowska), uma paciente terminal de câncer. Pra fechar o triângulo, os dois convivem com o fantasma de um piloto kamikaze da 2ª guerra - Hiroshi (Ryo Kase). Conversa vai, conversa vem e acabam virando namorados. Enoch fica muito próximo de Annabel e questiona mais do que ela seu tratamento médico. Assim o filme conquista o espectador, sem pieguices ou derramamento de lágrimas. Com tudo muito bonitinho, simpático e generoso com o público, "Inquietos" não precisa de mais de 91 minutos de projeção para encantar o espectador com sua história de amor. O filme é dedicado ao genial Dennis Hopper, pai do jovem Henry, estreante no cinema.
Premiado pelo conjunto de sua obra no Festival de Cinema do Douro, encerrado em setembro em Portugal, Carlos Diegues foi o diretor escolhido por Erasmo Carlos para traduzir na língua do videoclipe a picardia de "Kamasutra", uma das faixas de "Sexo", o novo CD do Tremendão. Ator em filmes como "Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa" (1968) e "Os machões" (1972), Erasmo recicla seus dotes para interpretar no vídeo, que já está disponível no YouTube, espaço virtual que o diretor de "Bye bye Brasil" (1979) define como uma vitrine para o cinema do futuro. Preparando um novo longa-metragem, Diegues — que vai ganhar uma retrospectiva no Lincoln Center, em Nova York, em 2012 — conta como foi levantar a bandeira da liberdade sexual fora do cinema e fala sobre sua experiência com filmes publicitários.
"Kamasutra" brinca com o erotismo numa produção que tem as liberdades narrativas de um curta-metragem. Como foi o processo de traduzir a sexualidade, em sua diversidade, na linguagem do videoclipe?
CARLOS DIEGUES: Uma das bandeiras mais generosas da cultura dos anos 1960, de onde eu vim, foi a do fim do preconceito sexual. De lá para cá, a Humanidade recuou nesse particular, e acho que devemos insistir no ideário de um sexo desprovido de traumas, punição e interdições medievais. Aproveitei a ótima música de Erasmo e Arnaldo Antunes para fazer o elogio disso. Além de Erasmo e sua música, usei também o jovem comediante George Sauma, dando humor, leveza e graça ao assunto. O único clipe que dirigi antes desse foi "Exército de um homem só", para os Engenheiros do Hawaii.
No anos 1980 e 90, a MTV era a casa dos videoclipes. Hoje, o YouTube virou a sala de estar do formato. O que o YouTube representa para o cinema como vitrine?
DIEGUES: Gosto muito do que Caetano Veloso diz do YouTube: "Ele é uma lixeira onde você pode encontrar pérolas raras." Alguma coisa do futuro do audiovisual se encontra no YouTube, e só trabalhando muito com ele nós vamos descobrir o que é. Não creio que a juventude de hoje veja muito a MTV, como via no passado. A MTV se tornou conformista e muitas vezes chata, repetidora do que já está no resto da TV. Aí, é melhor você perder o dia no YouTube, procurando tanto o que tem na MTV como as pérolas raras do Caetano. Não tenho preconceito em relação às vitrines do cinema, não vejo muita diferença se meu filme vai passar numa sala de exibição, na TV ou na internet.
Como está a produção de seu novo longa, "O Grande Circo Místico"? DIEGUES: O filme tem a ver, em parte, com o universo do videoclipe. Espero poder filmar no ano que vem. Por enquanto, ainda não começamos a montar a equipe. Mal começamos a escalar o elenco, que terá dois ou três atores estrangeiros. Hoje, o único ator confirmado é Lázaro Ramos.
Você dirigiu comerciais emblemáticos, como a campanha das raspadinhas com o Costinha. De que maneira a publicidade e o clipe refinaram as suas habilidades como realizador?
Diegues: Não tenho, nem nunca tive preconceito nenhum em relação à publicidade, uma arte de nosso tempo que merece respeito e aplicação, como qualquer outra originada do imaginário humano. Mas, entre o final dos anos 1980 e o início dos 1990, naquele dramático período pré e pós-Collor, quando a possibilidade de fazer cinema no Brasil chegou a zero, eu me vi obrigado a topar fazer qualquer coisa para sobreviver. Fiz muito comercial de varejo vagabundo, incluindo essa famosa campanha das raspadinhas, com o grande Costinha. E a gente se divertia muito improvisando paródias em cima do roteiro dado pelo cliente. Em tudo isso, eu procurava me empenhar como se fosse um filme meu mesmo, do qual eu pudesse me orgulhar sempre. O que nem sempre acontecia, é claro. Mas este empenho valeu à pena, aprendi muita coisa com a publicidade e acho que a publicidade também não tem do que reclamar de mim. Até hoje, quando aparece a oportunidade, faço alguns comerciais que me são oferecidos, com todo o gosto do mundo.
O diretor de "Muita calma nessa hora", que fez 1,4 milhões de espectadores, aproximadamente, fala de sua experiência no cinema e na publicidade.
De que forma o êxito comercial de "Muita calma nessa hora" mudou a sua imagem no cinema brasileiro? De que maneira o prestígio popular do filme modificou sua imagem no mercado publicitário?
No cinema minha imagem era o "Ódique?", tava tudo ali, resta saber que impressão ela tinha para os outros. Eu me via como um jovem inexperiente cineasta com muita paixão e determinação pelo que faço e acertei quando decidi investir tudo em mim mesmo e dizer, eu posso. Queria estabelecer uma relação com a minha geração de que uma câmera na mão e uma ideia na cabeça não era só papo de baixo Gávea. Com a visibilidade que tive com o "Ódiquê?", pouca mas determinante, consegui muitas coisas, motivar colegas que filmaram em seguida, me apresentar para o mercado como um diretor contratado e principalmente definir meu "DNA". O "Muita calma..." é o resultado desse investimento. No "Muita calma..." pude experimentar minha autoralidade a serviço de um produtor. A partir daí construí outra parte da minha imagem. Para aqueles que assistiram o "Odiquê?" é possível notar as semelhanças e ainda me relacionar a um cinema mais autoral. O "Muita calma" populariza e não mede as consequências, minha imagem se fortalece ao mesmo tempo em que se rotula pelo gênero. Fiz um plano de carreira visando um mercado em pleno crescimento. Ser um diretor contratado e a partir daí buscar as oportunidades de voltar a produzir independente. Acredito que assim posso explorar a dramaturgia além dos gêneros. Para a publicidade sinceramente não senti muita diferença após "Muita calma...". Para os clientes que já orçavam comigo foi bom, reforçou o nível de confiança para ambos. Quanto a novos trabalhos, senti uma ligeira inclinação de alguns clientes principalmente nos chamados filmes de atores. Queria mais, gostaria de ter mais oportunidades em novos formatos, assim como foi com a campanha de Oi com o Bruno Garcia pra internet.
Que ferramentas estéticas do cinema publicitário você importou para a direção de suas comédias?
O tempo. Nada mais precioso que a observação da trajetória de uma piada. A publicidade nos obriga a pensar o tempo a favor e contra. A publicidade é um trabalho de encomenda e por isso esta sempre submetida ao critério dos outros, o que faz rir ou chorar é relativo. É preciso ter certeza do que está sendo dito e pra quem. Revisar o texto, as questões cênicas, atores e principalmente, ouvir. Na edição tudo é revisitado e por incrível que pareça o mesmo processo se repete.
Quais são os planos para "E aí, comeu?" em relação a cronograma de filmagem, locação, elenco? Como você define esse filme na sua lista de projetos pessoais para o ano?
Estamos em pré do "E aí, comeu?", começaremos a filmar em novembro pelo Rio de Janeiro, basicamente em locações. Quero uma comédia com ambientes e personagens realistas. É um filme sobre três amigos discutindo a guerra dos sexos em meio a suas crises existenciais e amorosas. É uma comédia pra ver de casalzinho. O filme tem como protagonistas Bruno Mazzeo, Emilio Orciolo e Marcos Palmeira. Além de Tainá Muller, Laura Neiva e Dira Paes. Vejo o filme para a minha carreira como mais um desafio, muita ansiedade, determinação e alegria. Pretendo não criar expectativas, a corrida por bilhetes é um veneno, o Casé é um puta produtor e sabe o que tá fazendo. Minha obrigação e compromisso são para com ele e tenho tido todo o suporte que preciso.
Qual foi a importância de levar o curta-metragem "Sobre o menino do Rio" para Cannes?
Estava afastado dos festivais de cinema desde o "OdiQuê?". Os festivais de cinema pra mim são uma espécie de diplomacia cultural onde discuto políticas cinematográficas e arte. O "Muita Calma..." teria uma carreira diferente, não via a possibilidade de festivais internacionais, a não ser os de língua latina ou de filmes brasileiros ao redor do mundo, como foram o Latino de San Diego e o Brasileiro de Miami. Precisava também reexplorar minha autoralidade, sabia que viriam "E aí, comeu?" e outros convites pela frente. Desengavetei um texto de uma autora que descobri em um blog (Ale Félix), marcamos de nos encontrar, adaptamos pra um curta, montei uma equipe, pré-produzi, rodei e montei em uma semana. Um filme que abordasse questões existencialistas na cidade maravilhosa. Queria estimular a curiosidade do mundo sobre a vedete do momento e abrir espaço pra questões do nosso cotidiano que ainda nos afligem. Um belo cenário, bons atores (Silvia Buarque e Sergio Malheiros) e uma cinematografia clássica, cinemascope PB. Tudo que a francesada gosta, bebi na fonte deles e deu certo. Fui pra Cannes e pirei! Acho que voltei pro Rio mais esperto e criativo. Abri a possibilidade pra outros festivais e conheci pessoas incríveis.
De que maneira a sua incursão no cinema modificou sua maneira de dirigir comerciais?
Sou muito mais calmo no set hoje. Não sofro das inseguranças dos outros, evito deixar decisões pra depois e meus clientes sem saber o que pretendo. Me sinto mais seguro com os talentos, ganhei a confiança deles e retribuo da mesma forma. Adoro trabalhar com atores e ajudar a resolver questões que viabilizem a produção.
Cite um comercial que você considere um marco na história da publicidade? O Zico trocando uma coca pela camisa da seleção. Chupa Neymar!
N.R. Este filme adaptado de uma campanha protagonizada por um astro do futebol americano foi dirigido por uma lenda da publicidade e do cinema brasileiro: Carlos Manga
O grande vencedor do Cine-PE estreia nesta sexta. ‘Estamos juntos’, dirigido por Toni Venturi, levou 6 prêmios entre eles melhor filme e atriz. Na história, Carmen (Leandra Leal) é uma médica que tem no DJ Murilo (Cauã Reymond) seu melhor amigo. Vive entre ele e uma figura enigmática que não larga de seu pé, representado por Lee Taylor. Mas aí chega o espaçoso argentino Juan (Nazareno Casero), que vai conquistar a moça. Apesar da aparente confusão, está tudo bem nesse quadrado quando a notícia de um tumor cerebral abala sua vida. Venturi faz de seu filme um hino de amor a São Paulo e seus habitantes de apartamentos classe média e cortiços da periferia ao mesmo tempo em que vai fundo na alma de seus personagens. Extrai com precisão cirúrgica ótimas interpretações de Leandra Leal e de Cauã Reymond, este cada vez mais chegado à tela grande. A fotografia de Lula Carvalho (“Tropa de Elite” e “Budapeste”) é o suporte da força dramática de “Estamos juntos”. Das poucas estreias da semana, o filme de Venturi pode ser a surpresa. Uma grata surpresa.
“Piratas do Caribe – navegando em águas misteriosas”
Um fim de semana blockbuster: chega aos cinemas o quarto filme da franquia das aventuras do pirata Jack Sparrow. Em “Piratas do Caribe – navegando em águas perigosas”, dirigido por Rob Marshall (de Chicago e Nine), Sparrow (Johnny Depp) está empenhado em encontrar a fonte da juventude, mas para isso terá que enfrentar o temível Barba Negra (Ian McShane), o capitão Barbossa (Geoffrey Rush), um amor do passado - Angelica (Penélope Cruz), um grupo de sereias de tirar o fôlego e mais algumas coisas. Uma aventura estilo Indiana Jones dos mares, onde se luta até por um par de cálices para alcançar a tal fonte. Furacões que se apossam de corpos, transfigurando-os, estão lá numa citação ao filme “Em busca do cálice sagrado”. Ao contrario dos anteriores, “Navegando em águas misteriosas” apresenta uma história mais linear, evitando narrativas confusas e personagens em demasia. Portanto, quem não viu nada dos Piratas vai se encantar com este que traz um plus da moda: foi todo filmado em 3D. Com um custo de produção de U$ 200 milhões (a série faturou até hoje U$ 2,7 bilhões), tudo indica que virá um quinto filme por aí. Enquanto não chega é uma maravilha se deliciar com tiradas impagáveis como esta do Capitão Tigue (Keith Richards) num papo com Sparrow, seu filho: - Pela minha cara dá pra ver que não encontrei a fonte da juventude.
‘Caminho da liberdade’ é uma das estreias desta sexta nos cinemas. Produzido, escrito e dirigido pelo australiano Peter Weir, dono de uma diversificada filmografia em que se destacam 'Sociedade dos poetas mortos', 'O show de Truman' e o thriller 'A testemunha'.
Na trama, o ano é 1940, na Polônia rachada ao meio entre a Rússia de Stalin e a Alemanha de Hitler. Januzc (Jim Sturgess) é acusado de espionagem após denuncia de sua mulher, torturada pelo exercito de Stalin.
Condenado a trabalhos forçados num gulag, empreende uma fuga ao lado do americano esquisitão Mr. Smith (Ed Harris) e mais cinco condenados. Caminham mais de 6.400 km atravessando geleiras siberianas, o deserto de Gobi, passando pelo Tibet até atingir a Índia.
Falta ao filme de Weir (sem filmar há 7 anos) densidade dramática e envolvimento emocional com seus personagens. Tudo indica que o diretor quer esconder as mazelas de seu roteiro com a belíssima fotografia de Russel Boyd.
Filmes inspiram, mas este eu duvido que vá lhe dar disposição para uma caminhada no fim de semana.
Lembra da baratinha boa-praça daquele velho comercial de Rodox? E do seu primeiro sutiã, você já esqueceu? Sua Skol ainda desce redondo? Já se decidiu se Tostines vende mais porque é mais fresquinho ou é mais fresquinho porque vende mais? Bom, se sede não é nada e imagem é tudo, como São Sprite nos ensinou, e se sua memória já não é nenhuma Brastemp, então gaste um segundinho (ou minutos ou até horas) do seu break, e mate as saudades dos comerciais que fizeram (e fazem) a História da publicidade aqui e lá fora. Descubra aqui as novas boas idéias para vender produtos e conheça quem está por trás dessas obras da arte da propaganda. Em 30 segundos ou menos, há quem faça algo mais do que um divertido reclame. Há quem faça cinema. Ou melhor, Cinema Curto. Faça deste blog seu espaço para conhecer, reconhecer, criticar, reinventar e curtir os melhores (e os piores) comerciais feitos no Brasil e no exterior. Como? Basta mergulhar nas entrevistas feitas com diretores, produtores, técnicos e atores sobre suas experiências na publicidade para entender o que a aproxima do cinema, com pinta de curta, mas com fôlego criativo de um bom longa-metragem. Entre aqui e comente. Bata palmas, malhe, ria, esperneie. O espaço (quer dizer, o blog) é seu.