sábado, 31 de janeiro de 2009

Dois ingleses e um americano.

Três filmes. Dois suaves e divertidos e um para chocar o distinto público.

Stella Artois - "Perfection Has It's Price".

O humor fino e irônico presente em todos os filmes da marca, está de volta neste comercial da Lowe de Londres para a Stella Artois. Uma prova de ciclismo em belas locações de produção caprichada, que remetem a um passado de tradição da marca.
Como diz o slogan: perfeição tem seu preço. E no caso deste filme, não é barato.



Os laboratórios Pfizer na Inglaterra, alertam o consumidor para evitar a automedicação. Você pode estar ingerindo veneno sem saber. Alguns enquadramentos acabam "maquiando" a pós produção de efeitos no filme, mas a idéia é boa e contundente e surpreende o espectador pelo menos na primeira inserção. A agência é a Langland, dirigido por Henry Littlechild e com pós-produção da The Mill.




A idéia parecia boa, até descobrir esse aqui sobre bulimia igualmente chocante.



TBWA\CHIAT\DAY de Los Angeles. De lá costuma vir coisa boa. E veio mais um da Pepsi, agora na onda da Obamamania, que vem tomando conta dos Estados Unidos. O filme desfila situações da vida americana desde o comecinho do século 20, ao som de "My Generation" sucesso da banda The Who nos anos 60.
É muito bem produzido, mas num comercial americano e com este tema não é favor nenhum.
The Who pra quem era daquela ou desta geração ainda bate uma bola.
A produção é da MJZ, direção de Dante Ariola e fotografia de Matthew Libatique.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Heitor Dahlia: cheiro de talento.

Prestes a ver a primeira cópia de seu novo longa-metragem, o drama "À deriva", sair do forno, o cineasta pernambucano Heitor Dhalia, diretor de "O cheiro do ralo", descolou um tempinho para relembrar ao CINEMA CURTO seu histórico como diretor de publicidade. Confira:

Cinema e publicidade são duas atividades radicalmente diferentes. Os objetivos e premissas diferem na essência. A base do cinema é a dramaturgia e a da publicidade é a fagulha criativa, a concisão de forma e conteúdo. São realmente dois mundos bem distintos, com regras e métodos de avaliação diferentes.
No entanto, estes dois mundos se tocam em algum lugar. Como, no Brasil, não existe industria de cinema ainda. A maioria dos técnicos de cinema vive da publicidade e eles trazendo suas experiências de um mundo para o outro. Hoje, a conexão entre estes dois mundos está mais frequente, tanto aqui como no exterior.
Sempre encaro a publicidade com um campo de experimentação rico. Onde posso experimentar e exercitar tanto o aspecto técnico quanto criativo de uma filmagem. Dois, exemplos, de comerciais que eu adorei fazer: O primeiro deles, um filme de carro, que se passava durante as queimas de carros na periferia francesa onde um grupo de jovens destruia e incendiava carros nas revoltas de 2005. O carro protagonista era poupado. Foi bem divertido realizar este filme, quebra-quebra, queima de carros, confusão fumaça. Filmamos com duas câmeras e foi bem legal, pude experimentar coisas que vou usar um dia em filme mais explosivo, digamos assim.
E o outro filme foi um spot de Coca-cola estilo Bollywood.


O comercial segue o estilo "Slummdog Milionarie" (filme do diretor inglês Danny Boyle indicado a dez Oscars). Foi bem engraçado, um casting incrível, figurinos divertidos, coreografias hilárias. Eu me diverti bastante.
Meu comercial favorito foi dirigido pelo Ridley Scott. Lançamento do Macintosh. O ano de lançamento do filme é 1984. O filme retrata o mundo previsto pelo livro "1984" (de George Orwell), no qual o mundo é controlado pelo Big Brother. Nele, todos são iguais sob a dominação chata do Big Brother, alusão à IMB da época. Entra uma mulher correndo por um galpão cheio de pessoas vestidas uniformeente. Ela tem um cabelo visionário, à la Blade Runner, e corre com um martelo gigante na mão em direção ao Big Brother, uma tela eletrônica. Ela lança o martelo e destroi a dominação de um mundo sombrio. Mensagem: 1984 não vai ser igual a "1984". Macintosh. Genial. Adoro.




Veja no BlueBus o vídeo do jovem Steve Jobs apresentando o filme "1984"

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O homem dos mil filmes.

Mergulhado na pós-produção de “Besouro”, seu primeiro longa-metragem em meio a uma estrada de cerca de três décadas de publicidade, o carioca João Daniel Tikhomiroff foi o diretor escolhido para inaugurar o cardápio de entrevistas do Cinema Curto. Por que ele? Bom, quantos publicitários brasileiros têm no currículo: a) mil filmes dirigidos (isso, arredondando a conta para baixo); b) 41 Leões de Ouro no Festival de Cannes (na Croisette, ele é o segundo mais premiado); c) presença no Top Ten dos melhores realizadores mundiais da revista “Creativity”; d) a honra de ser o único latino-americano citado entre os 30 melhores profissionais da publicidade segundo o “The Commercial Book” (ufa!!!). Se alguém pode falar da fronteira entre arte e “business” na feitura de uma campanha publicitária, ele é a pessoa. Saiba por que na entrevista a seguir:

CINEMA CURTO: Em que casos um filme publicitário ultrapassa a fronteira de sua proposta comercial e se encaixa no que classificamos como cinema? Que filmes seus chegaram a ultrapassar esse extremo?

JOÃO DANIEL TIKHOMIROFF: Eu diria que um filme publicitário não pode ser relacionado ou mesmo comparado com o cinema, diria que é possível relacionar filme publicitário com entretenimento. Nesse contexto, publicidade e entretenimento, há exemplos bem interessantes que tive a oportunidade de dirigir e que, certamente, ultrapassaram essa fronteira. Alguns exemplos: “Passeata”, para a Staroup, pela agência WBrasil; “Búfalos”, para o Bozano Simonsen, pela Fischer; “Planeta”, para o Bradesco, pela Neogama BBH; além dos filmes “Chorando”, para a Companhia Atlética, pela DM9DDB, e “Largada”, para a Mizuno, pela Almap/BBDO.

Foto de cena de “Besouro”

CC: Após anos de experiência no cinema publicitário, você se arrisca agora em um longa-metragem ficcional. De que maneira a sua experiência na publicidade lhe deu a noção de que cinema é "deixar os personagens e os cenários contarem a minha história", como você explica em
http://www.besouroofilme.com.br/blog/

JOÃO DANIEL: Pouca gente sabe, mas a minha base vem do cinema. Meu pai, Daniel Michael Tikhomiroff, foi diretor geral da Universal Pictures no Brasil. Por isso, cresci no cinema. Lembro que, aos sete anos, esperava avidamente pela chegada dos filmes de Alfred Hitchcock por aqui. O caminho profissional não poderia ser diferente. Comecei a carreira como assistente de direção de vários longas. A partir dos 19 anos, eu tive a oportunidade de começar a dirigir curtas e documentários. Não muito depois, eu me aventurei na direção do meu primeiro longa, um daqueles sonhos de juventude que tiveram ajuda financeira da família. Era um projeto considerado bem underground para a época. Cheguei até a fase da edição e o dinheiro acabou justo na finalização. Ainda bem, era um sonho e não tinha maturidade, hoje reconheço. Foi assim que a publicidade entrou na minha vida. Comecei a dirigir filmes publicitários para TV para ter condições de financiar meus próprios filmes. Fiquei mais tempo do que imaginava na publicidade. Aliás, não penso em deixá-la. É algo fascinante. Em 1989, ensaiei novo retorno para o cinema e fui convidado para dirigir um filme que teria três episódios. Cada um seria dirigido por um cineasta, todos eles falados em inglês. Era um projeto em conjunto com a Flávia Moraes e Adriana Salvoni, que tinham os direitos de uma das obras da Dorothy Parker (autora de “Big Loira e outras histórias de Nova York”). Trabalhei no roteiro durante um ano com o Euclydes Marinho, mas veio a era Collor, que matou o cinema nacional. O projeto terminou na mesma hora.

CC: Qual é o maior desafio de encarar a direção de uma ficção?

JOÃO DANIEL: A criação da Mixer permitiu o retorno ao meu caminho original. Dessa forma, nasceu “Besouro”, meu primeiro longa, que está em fase de pós-produção e com estreia prevista para o segundo semestre deste ano. Não posso negar que a direção de filmes publicitários me ensinou algo fundamental: conseguir contar uma boa história em 30 segundos. O poder da síntese é imprescindível no cinema e foi a publicidade que me deu essa bagagem. Depois de vários anos praticando direção em comerciais, agora me sinto maduro e com segurança para dirigir um projeto tão ambicioso. O desafio de encarar uma direção, seja uma obra de ficção ou um filme publicitário, é fazer com que as pessoas se apaixonem pela história tanto quanto o diretor.

CC: Existe uma estética publicitária tipicamente brasileira?

JOÃO DANIEL: Definitivamente não. Na década de 1980, houve uma tentativa de se construir uma pseudo-estética brasileira, com a criação de filmes simples desenvolvidos a partir de idéias fortes. Depois disso, não houve sequer outros ensaios nesse sentido. Lembrando que estética é bem diferente de linguagem. E, não há dúvida, a cultura brasileira, que é pontuada pelo bom humor e pela criatividade, faz da linguagem publicitária brasileira algo muito peculiar. Nossas piadas são escancaradas e traz um tempero diferenciado. Quando tentamos imitar, por exemplo, o humor inglês, soa falso. Linguagem própria o Brasil tem.

CC: No ofício de dirigir comerciais, "arte" e "publicidade" são conceitos que se complementam ou se repelem?

JOÃO DANIEL: A publicidade não é uma obra de arte. A publicidade pode ter como resultado uma obra quase artística, mas não dá para pensar a publicidade como arte. O universo publicitário pensa o posicionamento de um produto, de uma marca e de sua ideologia. Com uma linguagem inteligente, porém, a publicidade consegue falar com as pessoas e provocar suas emoções a ponto de despertar nelas o interesse pelo consumo de um determinado produto.












Comercial "Sony Bravia: Balls"


CC: Que comerciais você destacaria por sua excelência de linguagem?

JOÃO DANIEL: Há muitos comerciais que destacaria. Nos últimos três anos, todos os comerciais criados pela agência inglesa Fallon para as TVs Sony Bravia, intitulados “Balls”, são bem interessantes. Outros que considero ousados são os últimos filmes feitos para a cerveja inglesa Guinness, como o clássico “noitulovE” (evolution ao contrário), assinado pela agência inglesa Abbott Mead Vickers BBDO, vencedor do Gran Prix no Festival de Cannes em 2006. Citaria ainda os comerciais para o Bangkok Bank, da Tailândia, com linguagem inovadora e ousada, além das campanhas conceituais criadas pela londrina Wieden+Kennedy para a Honda, especialmente o premiado filme “Grrr”, em animação.

CC: Quais são os preconceitos que cercam um publicitário no fluxo migratório para o cinema?

JOÃO DANIEL: Se existiu algum preconceito, foi no passado. Hoje, todos entendem que se trata de um caminho natural e já consagrado, com exemplos muito bem-sucedidos tanto no Brasil quanto no exterior. Um dos pioneiros nessa migração publicidade para cinema foi Ridley Scott, que dirigiu entre outros filmes “Blade Runner”. Há também Hugh Hudson, diretor de “Carruagens de fogo”, filme vencedor do Oscar em quatro categorias. Mais recentemente, eu destacaria o adorável “Pequena Miss Sunshine”, dirigido pela dupla Jonathan Dayton e Valerie Faris, que também ganhou Oscar. Todos eles abriram caminho para diretores consagrados, que vieram do mundo publicitário. Há casos como os de Michel Gondry, Jean-Pierre Jeunet, Walter Salles, Fernando Meirelles, Heitor Dhalia, Cao Hamburger e outros.

CC: Que comerciais você gostaria de ter assinado?

JOÃO DANIEL: Há muitos filmes e comerciais que gostaria de ter dirigido. Citando exemplos contemporâneos do cinema internacional, eu destacaria “Brilho Eterno de uma mente sem lembranças”, dirigido por Michel Gondry, e “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, dirigido por Christopher Nolan. Do cinema nacional, eu citaria “O ano em que meus pais saíram de férias”, de Cao Hamburger; “Diários de motocicleta”, de Walter Salles; “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles. E veja que curioso: dos cinco exemplos dados, quatro são de diretores que passaram pela direção de comerciais de TV. Se fosse eleger comerciais, seriam os da Fallon, para as TVs Sony Bravia, além dos filmes da Abbott Mead Vickers BBDO para a Guinness, e os do Bangkok Bank, pela ousadia da linguagem.


Confira aqui alguns dos trabalhos de João Daniel: