sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

A Noite do Tungstênio – Toninho Lima

Depois do Torres, outro Antonio criativo: Toninho Lima da NBS.


Eram os anos noventa em seus últimos suspiros, lá por 1998, se não me engano. Sei que era setembro porque minha filha mais velha fazia aniversário e eu liguei de lá, entre emocionado pela data e pela experiência inédita que estava tendo no sertão do Seridó, no coração do Rio Grande do Norte.
O cliente era o Sebrae, que até então eu confundia com uma autarquia do governo federal, sei lá porque cargas d’água. Acho que soava oficial, sabe como é? E a sede fica em Brasília, poxa.
Era um filme de um minuto, publicidade, que tratava de um projeto do Sebrae chamado PRODER. Não confundir com o PROER, da mesma época.
O PRODER chegava numa comunidade pobre, se reunia com representantes da prefeitura e da sociedade, estudava a economia local, descobria vocações e ajudava aquela cidade a encontrar o rumo do desenvolvimento auto-sustentável. Eu escrevia os anúncios e criava os roteiros contando isso com a mesma indiferença com a qual falava dos benefícios das pastilhas listradas do novo Raid Elétrico. Não acreditava numa sílaba de cada palavra que anotava mecanicamente. Balelas. Como sempre.
As reuniões, em Brasília, eram tediosas. Sempre havia um diretor que não podia vir e um assessor que o substituía e fazia as mesmas perguntas que eu já tinha respondido em outras reuniões anteriores.
Tinha um diretor, com quem eu tratava mais diretamente, que tinha uma boa visão da coisa toda. E parecia gostar mesmo do projeto. Falava dele com uma certa carga emocional, eu diria. Chamava-se Evandro. Foi ele quem sugeriu que eu fosse acompanhar a filmagem, no sertão do Rio Grande do Norte.
De início, eu recuei. Iria perder muitos dias de trabalho. Mas quando eu soube do esquema montado para aquela produção, fiquei tentado. A produtora considerou aquele projeto como um projeto de longa-metragem. Era, até pela linguagem do roteiro que eu tinha criado, um documentário em um minuto. E assim foi encarado pelo diretor, Juarez Precioso, que eu conhecia bem e com quem sempre gostei de trabalhar.
A trilha, por exigência minha, era composta especialmente, num estilo bem nacionalista, quase patriótico. Para inspirar o maestro Felipe Radicetti, levei umas gravações da trilha do Bem Amado, na TV Globo dos anos 70. Ele pegou o espírito da coisa e a música do filme ficou de arrepiar.
E a fotografia seria poderosa, épica. O que obtivemos na figura do diretor de fotografia Nonato Estrela, vindo de longas, e dono de um dos maiores e mais inesgotáveis repertórios de piadas do mundo publicitário e cinematográfico.
Partimos, então, para a nossa grande aventura no coração do nordeste. Íamos para uma comunidade chamada Gargalheiras, em torno de um enorme açude artificial, criado para a pesca de subsistência. Para chegar lá, precisávamos sair de Natal, de van e pernoitar em Currais Novos, uma cidade típica do interior nordestino, com um hotel e uma igreja. O hotel se chamava Tungstênio, o que só não causou mais estranheza do que o nome da própria cidade.

Hotel Tungstênio
Eu disse ali acima que era setembro, não foi? E era mesmo. Mas, sei lá porquê, demos de cara com o carnaval. A cidade fervilhava, um trio elétrico arrastava multidões pela praça principal. A população inteira da cidade estava na rua. Ninguém, a não ser o forasteiro aqui, pensou em se recolher e dormir. Mas eu tinha que acordar às 5 da matina para seguirmos viagem. O produtor era duro com horários. E eu, apesar de ser da agência, fazia parte da equipe. Assim como o Paulo Netto, nosso rtvc na época, que dividiria comigo o quarto do Tungstênio. Eu avisei: Paulinho, vou indo pro hotel. Você vem?
Não ouvi muito bem a resposta, porque a cabeça dele aparecia vez por outra por sobre a multidão e desaparecia imediatamente. Desisti e fui sozinho para o hotel.
O Hotel Tungstênio ficava do outro lado da praça, o que me irritou porque o som do trio elétrico podia ser ouvido de lá e era bem alto. Mas nada que um travesseiro sobre a cabeça não resolvesse. Eram quase duas da manhã eu precisava de uma ou duas horas de sono, pelo menos. Pensei nas coisas que já tinha visto até agora e no que iria poder contar quando voltasse ao Rio. E depois pensei na minha casa, na minha mulher e depois, depois... caí no sono.
Eu disse que precisava dormir umas duas horas? Foram exatos 10 minutos. Acordei com a cama pulando. Literalmente, pulava e me sacudia. Um som ensurdecedor gritava nos meus tímpanos (e olha que eu estava com o travesseiro sobre os ouvidos): - Carrinho de mão, ê, ê, carrinho de mão, ê, ê!
Eu ainda nem tinha me refeito do susto quando ouvi socos na janela do quarto. Abri para ver o que era. O trio estava parado em frente à minha janela do hotel. E o teto, onde a banda tocava, ficava na altura do meu parapeito. O trio elétrico tinha praticamente invadido o meu quarto!
Quando me refiz do choque, descobri quem tinha esmurrado a minha janela. O Paulo Netto, meu companheiro de quarto, se esbaldava em cima do trio, fazendo coreografia e tudo. Sem camisa, ou melhor, com a camisa na cabeça como se fosse um turbante, ele estava eufórico e absolutamente enturmado com os músicos e as dançarinas.
Apesar de ter continuado com os pés dentro do quarto, estive até às cinco da manhã, praticamente dentro do trio elétrico. Não seria esta noite que eu conseguiria dormir.
Eu já tinha fechado as malas e estava saindo do banho quando o Paulinho chegou, rouco, cantarolando: - Acaboooooooou.... acaaaabou!
Ele parou na entrada do banheiro e ficou me olhando. Eu perguntei: - O que foi? E ele, na maior naturalidade, pergunta: - Será que ainda dá pra tomar um café da manhã?
Aquela era apenas a primeira parada da nossa viagem. Ainda tínhamos que chegar à nossa próxima base, uma cidadezinha simpaticíssima chamada Acari. De lá, seguiríamos alguns quilômetros e pousaríamos em duas pousadas separadas, na própria comunidade das Gargalheiras. Em condições, eu diria, bem rústicas.
Muita coisa aconteceu depois disso. Foram oito dias de filmagem. E de histórias inesquecíveis. Se um dia eu tiver coragem, volto aqui e conto o resto. Combinado?

4 comentários:

  1. Risada é pouco, dei gargalhadas. Apesar de estar em SP trabalhando com propaganda, sou do NE, cabra da peste, dessas que morou no sertão e tudo mais. Conheco exatamente o cenário descrito, as músicas eu imagino bem quais foram tocadas, o hotel então...foi muito gostoso ler seu texto e me identificar tanto. Não sei o resultado do trabalho, mas com certeza, participar de um projeto como este, serviu para ter boas histórias pra nos contar...um beijo, e parabéns pelas palavras.

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  2. Grande Toninho, essse filme eu produzi, na época da Tec Cine onde era atendimento.....srsrsrsrs eu soube de muitas histórias....mas essa ai...s..srssrsrsrs imagino o Paulinho Netto pulando no trio eletrico....srsrsra e a cara dele. E o filme....a comunidade fazia la um produto fora do comum....linguiça de peixe....é mole...

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  3. Fantástico o texto!!! Leitura gostosa e agradável!!! Tinha que vir do Toninho Lima!!!! Adorei!!!
    Toninho, tome coragem logo e volte para contar o resto, combinado???

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  4. Parabéns, Toninho.
    A visão do criativo é que põe mais poesia e alegria na vida.

    Manoel Zanzoti

    PS. Toninho, eu acho que o Hotel Tungstênio, faz parte de uma rede de hotéis da tabela periódica.

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