quinta-feira, 26 de março de 2009

Roberto Berliner e a afinação da publicidade.

Devotado à direção de longas-metragens desde que o documentário "A pessoa é para o que nasce" lhe garantiu o respeito dos críticos e o carinho do cinema, Roberto Berliner - chamado de "Robertinho" pelos colegas - tem um currículo publicitário invejável. Em sua trajetória por comerciais, a música foi uma protagonista constante. Quem quisesse um reclame azeitado no som, com um medalhão da MPB em cena, chamava Berliner.
E ele diz não gostar muito de fazer juizos de suas escolhas estéticas.
- Na verdade, acho que explicar meus filmes ou meu estilo é uma coisa esquisita, talvez desnecessária. Ou se entende o que a gente faz ou não. Ou se gosta ou não. O papel do cineasta é fazer filmes, o da crítica é criticar, explicar... Os filmes são feitos pra serem entendidos. Se a gente tiver que explicar, é porque a gente errou. Acho que alguém já falou isso antes. De qualquer maneira, vamos lá...

Teu nome é bastante associado a projetos que passam pela música, inclusive na publicidade. De que maneira a música (MPB, em especial) se tornou uma ferramenta importante para os teus filmes publicitários?
ROBERTO BERLINER: Acho que sempre fui muito ligado à música e ao futebol. Quando pequeno, eu queria ser baterista e jogar no meio-campo. Acabei no cinema. Ouvi muita música boa na minha infância e na adolescência, nos anos 1960 e 1970. Era uma época muito fértil. Se eu fosse listar os nomes, não ia sobrar espaço. MPB, samba, rock, punk, black, tudo que tinha de bom. A música sempre foi parte importante da minha vida, desde a Rádio Mundial, do Big Boy, das festinhas. E todos os grandes nomes da MPB dessa época, que representaram uma ruptura não só musical, mas também de comportamento, acabaram me influenciando muito.

Como?
BERLINER: A minha formação inicial é de videomaker, ou seja, eu fazia tudo sozinho. Um dos meus princípios era quebrar as convenções sempre. No início dos anos 80, fundei a ANTEVÊ (cujo nome brincava com a ideia de ver antes, de ser uma anti-TV). Era dentro do Circo Voador e filmei, em VHS, tudo que acontecia lá dentro. Naquela bagunça, eu tinha espaço pra fazer o que quisesse. E fazia. Filmava do palco, no meio dos músicos, usava a câmera como se fosse um instrumento. Eu me sentia parte integrante da banda. Usava ao extremo os poucos recursos que tinha: movimentos de câmera, edição muito picotada e só. Era a minha música sobre as músicas das bandas. As imagens e os cortes tinham que estar integrados de alguma forma ao que a música sugeria. Ao mesmo tempo, eu documentava o que estávamos fazendo ali quase que diariamente. Então, era música e documentário juntos. Aos poucos, foi chegando gente e aquilo virou um núcleo, eu fui virando diretor de clipes e documentários. Daí para a publicidade foi uma questão de tempo. Eu não esperava virar diretor. Eu era ator, seguidor do Asdrúbal. Nem imaginava entrar no mercado da propaganda. Só entrei por causa desses trabalhos e pelas mãos do Paulinho Peres (editor do CINEMA CURTO) e do Toninho Lima. Acho que eles viram um documentário que fiz sobre Angola e alguns clipes e me chamaram.

Outra marca relacionada à "grife Berliner" é a relação de seus comerciais com a estética documental. De que maneira as ferramentas do documentário, seja no campo do cinema-verdade ou do cinema direto, podem servir para uma campanha publicitária na divulgação de uma marca ou produto?
BERLINER: Antes do circo voador, na faculdade, eu fazia documentários em super-oito. Desde que comecei a fazer propaganda, queria fazer publicidade-documentário, mas essas idéias não pegavam. O documentário propõe um mundo real, personagens reais, vida como ela é. O que aproxima o filme e o produto da verdade, e eu sempre acreditei que a verdade era a melhor maneira de vender, mesmo quando o personagem não está dizendo o texto exatamente da maneira que a agência e o cliente queriam. As falhas na luz e no cenário fazem parte desse tipo de filme. É preciso sujar a estética da publicidade e isso está acontecendo de um tempo pra cá com mais frequencia. Fiz também falsos documentários para trazer o tom real ao filme. Gosto do real, gosto do imprevisto que o documentário traz. Mas não usei cinema direto em propaganda, pelo menos até hoje. Mas, durante muito tempo, o documentário esteve meio fora de moda. E como a publicidade sempre viveu do que dá certo, da venda de um estilo de vida e de um tipo de beleza que pouco tem a ver com a gente, não sobrava espaço para o real. Até pouco tempo atrás, por exemplo, era muito difícil botar um negro em um filme de propaganda. Era um tema que precisava ser longamente debatido. E quase nunca era aceito. Incrível. E embora tenha melhorado, acho que ainda é assim. O mundo era, e é, dos brancos, que queriam ser loiros. Afinal, os negros são pobres e não compram. Quem queria ser negro? Talvez agora com o Obama a coisa mude um pouco. Tomara.

De que forma a publicidade lapidou sua maneira de se relacionar com o outro, com os entrevistados, a partir do filtro da câmera?
BERLINER: A publicidade influenciou muito os meus documentários. Acho que apurei a estética. O tipo de documentário que faço vem sempre com exaltações aos personagens. O que tento fazer é mostrar que essa gente pode estar na mídia de um jeito tão bacana quanto nossas celebridades. Trato os meus documentários de uma forma bem parecida com que faço os meus filmes de propaganda. No fundo, estou vendendo essa gente, seu estilo de vida, sua inteligência, para o grande público. Os personagens são meus parceiros nessas empreitadas.


"Afinação da Interioridade"
Melhor vídeo - Festival do Minuto 2001.

Existe um preconceito de que um cinema mais "clean", mais "clipado", seria uma extensão da publicidade na tela grande - coisa que a crítica costuma encarar com certo desdém.
BERLINER: Não associo o clipado com o clean. O clean vem da publicidade. O clipado vem do videoclipe e da videoarte. As imagens mais rápidas são consequência da maior capacidade que hoje temos de absorver e entender o que se passa em menos tempo. Os cortes rápidos trazem um tipo de sensação ou emoção ao que se passa que, se bem usado, pode ser muito legal. Nossa educação visual é muito mais apurada. Nos anos 1980, quando os videoclipes começaram a fazer muito sucesso, o cinema e a propaganda foram atrás e começaram a fazer coisas parecidas e muitos diretores de clipes foram para o cinema e para a publicidade e vice-versa. Foi o meu caso.



O que a publicidade aprendeu com o cinema?
BERLINER: A publicidade bem feita atingiu sim o nível do cinema bem feito. Mas temos de tudo. A publicidade tirou do cinema a técnica, idéias, linguagem, tudo. Mas devolve tudo isso para uma apropriacão, uma evolução do cinema. Por isso as referências são tão importantes. É assim que se evolui.

Você ainda consegue se dedicar diretamente à direção de comerciais em meio a processos de roteiro e à preparação de longas?
BERLINER: Não. Eu consigo fazer comerciais sempre que posso, mas tem partes no processo de um longa em que eu preciso estar presente, como agora que estou fechando o roteiro. Mas, ano passado, fiz uma grande campanha pra Brasil Telecom, da Leo Burnett. Não pretendo largar a publicidade. É parte da minha escola e do meu ganha-pão. E, além de tudo, eu gosto do processo, da troca, da rapidez, da possibilidade de estar em contato com equipe e equipamentos de alto nível. E a troca com a agência também é muito positiva.

Que comerciais você destacaria no teu currículo publicitário?
BERLINER: "Suicídio", para Polícia de São Paulo, Free-Jazz, Banco Nacional de Cinema, Coca-Cola, Sony Ericsson e a última campanha para a Brasil Telecom no ano passado.







Que comerciais de outros realizadores mais te influenciaram?
BERLINER: Os que me vêm à cabeça assim de primeira são os antigos filmes dos cigarros "Continental" dos anos 1960 ou 1970 que eram documentários com trabalhadores de classe baixa filmados Brasil afora. Era como se fosse um documentário mesmo. Lembro também de outra campanha do Continental, com músicas famosas como “Que maravilha”, do Jorge Benjor e "O portão", do Roberto Carlos. Eram filmes emocionantes.


N.R. Este comercial de Continental foi dirigido por Olivier Peroy em 1976. Nele, o cara que volta pra casa é Herson Capri, a mãe é Carmen Silva e a namorada é Nadia Lippi.

Tem um monte de outros filmes de que gosto. Uso muito as referências antes de filmar. Acho que elas são fundamentais não só no cinema ou na publicidade, mas na literatura, na arquitetura, na vida. Então, pesquiso muito antes de filmar pra ver como outros fizeram. Essa quantidade de informações me ajuda, me dá segurança na hora de filmar. Mesmo que seja pra fazer o oposto do que já foi feito.

Como está o projeto "A senhora das imagens"?
BERLINER: É a minha primeira ficção, baseada na vida da Dra. Nise da Silveira, uma psiquiatra alagoana arretada, que sempre foi contracorrente. Entrou na faculdade de Medicina na Bahia aos 15. Era a única mulher no meio de 157 homens. Depois, ela veio para o Rio, onde virou comunista e foi presa junto com Olga Benario, Graciliano, entre outros. É na prisão que começa a entender um pouco mais do que se passa com os esquizofrênicos quando estão internados dentro de um hospital e perdem sua identidade, seus objetos, suas roupas. Esses esquizofrênicos serão seus pacientes oito anos depois, quando volta a trabalhar no hospital. Ali, ao contrário dos outros psiquiatras que olhavam para as novas técnicas, novos aparelhos de eletrochoques, lobotomia, insulinoterapia, ela olhava no olho dos pacientes e se aproximava deles. Enxergava neles um espírito muito mais elevado que os ditos "normais". E por se recusar a apertar o botão do eletrochoque, Nise se vê isolada dentro do hospital. Essa mulher baixinha, violenta, que ama acima de tudo os loucos e os animais, essa obsessiva que não liga para valores materiais, essa brasileira espetacular, é o tema do filme. Uma missão complexa, dada a importância e a força dessa mulher, que não se dizia psiquiatra. Ela preferia ser chamada de psicodélica. O filme vai se passar nas locações reais, no mesmo hospital, no Engenho de Dentro e em outras locações pelo Rio. Drica Moraes vai ser a Nise. É a única já fechada no elenco. André Horta vai ser o diretor de fotografia.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Stella Artois 4% - 100% genial.

Os curtinhas da campanha da Stella Artois que envolve criativos brasileiros,você vê a seguir. Os filmetes virais são paródias de séries e filmes famosos e tem produção e fotografia meio toscas e elenco intencionalmente exagerado na interpretação.
Por isso mesmo são hilários e absolutamente originais como só a Stella Artois sabe e pode fazer.
Dica da Elisa Araujo no Bluebus





segunda-feira, 23 de março de 2009

Um editor iluminado.

Jack Nicholson se transforma num psicótico grave em "Shining" ("O Iluminado", 1980) de Stanley Kubrick.



Quatro anos atrás apareceu na rede esta versão do trailer. É a montagem que Rob Ryang fez com algumas inversões de planos e utilizando trilha sonora, texto e locução melosas. Um dos maiores suspenses do cinema virou uma comédia romântica.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Controlando o coral.

A Scholz & Friends de Berlim criou este comercial para a Loewe, fabricante de produtos de som e imagem. Como no filme da Nike aí embaixo a música sustenta a idéia. Filmado com simplicidade, apenas uma ou outra reação do regente ou integrante do coral diante das inusitadas situações e pronto. Muita gente deve ter pensado um dia num comercial assim.

terça-feira, 17 de março de 2009

Just watch it.

Finalizando seu novo filme "Welcome to the Rileys", Jake Scott, o filho de Ridley, dirigiu este comercial na RSA que mostra mostra atletas de vários lugares e modalidades despertando para mais um dia de treinamento duro.
A trilha é "Rock and roll ain't noise pollution" do AC/DC. Edição e fotografia de primeira, produto o tempo todo em cena e o dever de casa tá feito.



Aí chegou um brincalhão e colocou na rede uma versão onde a única estrela é Tom Cruise correndo em vários filmes. É tosco, mas divertido.

sexta-feira, 13 de março de 2009

419 dias, 2 horas, 23 minutos e 9 segundos.

No comercial da Nike que vai ao ar neste domingo, Ronaldo narra em off, o tempo que esperou para voltar aos gramados e fazer o que mais gosta: gol.
Gol de placa de oportunidade do cliente e da F/Nazca . Criação de Eduardo Lima, Pedro Prado e Rodrigo Castelari, direção de Felipe Briso e fotografia de Tiago Tambelli. A produtora é a Big Bonsai.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Alexandre Machado: Ser normal é ser pop.

Celebrizado na TV como roteirista da série "Os normais", cujos personagens novamente baterão ponto novamente nos cinemas ainda este ano, Alexandre Machado é um dos criativos mais concorridos da publicidade brasileira, com prêmios no Brasil e no exterior. Nesta entrevista, ele fala de influências, tendências, comerciais e do lado mais pop da arte publicitária.

Arte e publicidade são termos gêmeos ou são expressões que se repelem? Você já escreveu comerciais como se escrevesse cinema?
ALEXANDRE MACHADO: Cinema e publicidade fazem parte da cultura pop. Um influencia o outro, sem hierarquia. Eu escrevo um roteiro para cinema fazendo a mesma coisa que faço quando escrevo para a TV ou para a propaganda: dando o melhor de mim.

Queria que você me desse um panorama geral da tua experiência publicitária: quantos filmes?; quantos prêmios?; quantas lições?; e quantos amigos?
MACHADO: Não tenho a menor ideia. Milhares de filmes, milhões de prêmios, algumas lições, pouquíssimos amigos.


"A Semana" - Revista Época - Grand Prix Clio Awards 2000, criação de Alexandre e Jarbas Agnelli para a W/Brasil.

De que maneira a irreverência do "Planeta Diário" e do "Casseta" moldaram o teu estilo de diálogo para roteiros, tanto na dramaturgia quanto na publicidade? Em que medida a publicidade te ensinou a dominar melhor o humor?
MACHADO: Eu escrevia no "Planeta Diário", mas nunca fui do grupo. Meu estilo, acho, já vem de antes, quando eu escrevia no "Pasquim".

Que comerciais mais te influenciaram? Você tem um comercial favorito (seja teu ou de outros publicitários)?
MACHADO: Os comerciais dirigidos pelo Dodi (Dorian Taterka) em sua "época de ouro" ("Shell Responde", "Fiat", "US Top" etc) foram os que mais mexeram comigo.

O primeiro filme da série Shell Responde.


"Os normais" voltam às telas este ano. Que potencialidades dramáticas (cômicas) o casal Ruy e Vani te oferece no trânsito da TV para o cinema?
MACHADO: Bons diálogos, cenas rápidas, verossimelhança e identificação com o público.

De que maneira a experiência em publicidade pode favorecer o cinema no âmbito do mercado? O que poderia ser melhorado na publicidade cinematográfica nacional?
MACHADO: O mercado de propaganda salvou os profissionais do cinema, nas épocas de vacas magras. E os treinou para serem competitivos internacionalmente, hoje.

Que filmes foram essenciais na tua formação como cinéfilo?
MACHADO: "Apocalipse Now", "A primeira noite de um homem" e "Deu a louca no mundo".

Você sente traços de autoralidade nos trabalhos que fez para a TV?
MACHADO: Sinto, e espero que os outros também sintam. Adoro o veículo TV e é nele que atinjo o meu melhor, como profissional.

terça-feira, 10 de março de 2009

Baz Luhrmann e Sam Mendes em cartaz aqui.

Baz Luhrmann, o diretor de "Austrália", exercita-se na publicidade com dois comerciais para o turismo australiano. Os filmes foram produzidos na carona do longa-metragem em cartaz nos cinemas.
Nos comerciais, executivos em Nova York e Shangai são despertados pelo pequeno aborígene, personagem do longa, com um pó mágico que os convida "a se perder para depois se encontrar" e aonde? Na exuberante Austrália. Os filmes tem a cara do realizador e belíssima fotografia. E chega.




O mais recente filme de Sam Mendes, "Foi apenas um sonho" ("Revolutionary Road") é estrelado pela patroa Kate Winslet, que levou o Globo de Ouro de melhor atriz. Direção de atores é o ponto forte na filmografia deste inglês formado nos palcos londrinos. E boa direção e bons atores sobram nos comerciais dirigidos por Mendes para a HBO, premiados com Leões de Ouro em Cannes 2008.





Lady Godiva nas Gargalheiras - Toninho Lima



Toninho e a parte 2 da saga do Sebrae.

Pois eu estava contando aqui a história da viagem ao Rio Grande do Norte para a filmagem do comercial do Sebrae.
Então, vamos em frente. Refeito da noite festiva em Currais Novos, depois de tomar café da manhã com um Paulinho Netto insone, seguimos viagem. Paramos em Acari apenas o tempo suficiente para o almoço. É uma cidade bonitinha, parece cenário de novela rural da Globo. Tudo muito bem cuidadinho, mesmo. Parabéns ao prefeito da época que, espero, não tenha tido seu trabalho desfeito pelos sucessores.
O Paulo Netto ainda estava com a corda toda no almoço. De onde o cara tirava tanta energia? Emendou uma longa fileira de anedotas, com o seu jeito próprio de interpretar. Roubou a cena. Foi um dos almoços mais divertidos de que já participei. Dali seguimos direto para a nossa base de trabalho. O produtor desceu da van e disse:
- É aqui. Olhamos todos em volta e não vimos nada. Vimos a represa, enorme, parecia mais mar. Em volta, nada. Subindo uma ladeira íngreme, havia um hotelzinho. Pelo jeito, uma pensão. Mas tinha quartos com banheiro, luxo do qual eu sentiria muita falta nos dias que se seguiriam. Logo de cara, ficamos sabendo que ali não havia vagas para todos da equipe. Mas havia uma pousadinha, a do francês, logo nas margens da represa. Do francês, pensei, só pode ser boa. Era? Bem, ficava num lugar lindo, com uma vista deslumbrante para aquele mar artificial, ao por do sol. Coisa de deixar qualquer francês embasbacado. E o carioca aqui, também teve sua parcela de deslumbramento.

Pousada do Francês.


Fui conhecer meus aposentos. Era rústico, sim, mas bem bonitinho. Uma cama de casal, com lençóis de algodão vagabundo e uma privada ao lado. Sim, uma privada em vez de criado mudo. Até me lembrei de um anúncio antigo que falava de diferenças regionais e que provava isso com a palavra bidê. No Brasil inteiro fica no banheiro. No sul, fica ao lado da cama: é o que todos os outros brasileiros costumam chamar de mesinha de cabeceira. Ali, a privada fazia as vezes. Um pouco mais atrás, ficava o chuveiro.Dava até pra tomar banho sentado na privada. Difícil era evitar os respingos na cama.
Achei tudo muito esquisito, mas estava disposto a gostar do lugar. A primeira noite foi tranquila. Tinha visto as entrevistas que o assistente de direção havia gravado com os moradores do lugar e estava muito entusiasmado com as perspectivas do filme. A primeira providência que tomamos, em comum acordo com o diretor, foi abandonar o roteiro original. A realidade ali superava em muito a nossa imaginação. Havia ali histórias fantásticas, de superação, de união, de conquista de cidadania, todas reais e contadas por seus próprios personagens. Abri várias brechas para depoimentos no roteiro e me preparei para uma filmagem muito mais solta e livre do que os costumeiros comerciais que estava habituado a rodar. Fui dormir cedo, porque queríamos aproveitar o nascer do sol na represa.
Manejei bem a coisa da privada e do chuveiro convivendo com a cama. E o sono venceu a natural estranheza dos aposentos. No dia seguinte, quando o produtor bateu na porta eu já estava na privada, acordadinho. Eram quatro e meia da madrugada, mas eu estava zen.
Vamos filmar! Fui para o café da manhã bem disposto e animado. Primeiro dia de filmagem. Realmente, o lugar era um encanto, as pessoas também, pescadores e suas mulheres simples, mas de uma beleza surpreendente. Os americanos se esbaldaram por aqui na época da Grande Guerra. Nunca vi tantas mulheres de olhos azuis e pele cor de cobre. Crianças lindas e paupérrimas, todas felizes, nos seguiam aonde quer que estivéssemos. Rapidamente viramos a grande novidade do lugar. Foi um longo dia de filmagem, do nascer ao por do sol. Imagens lindas, depoimentos tocantes dos pescadores e das mulheres fortes da cooperativa. O assunto: a fábrica de linguiça de peixe. Isso mesmo! Eles desenvolveram ali, graças aos técnicos do Sebrae, um processamento do peixe e do camarão, para a sua transformação numa das mais procuradas iguarias do estado. Eu provei. Uma delícia. A coordenadora do Sebrae de Natal nos acompanhava na viagem toda. Era empolgada, envolvida com o projeto. Nos contou cada detalhe da implantação do projeto e nos disse que antes aquele povo dali vivia bem próximo da miséria. Vendiam o peixe a quilo, para atravessadores que levavam todo o lucro. A fábrica de linguiça de peixe mudou o destino daquela gente. E daquele lugar. Todos tinham agora casa recheada de eletrodomésticos e os filhos tinham uma boa escola, da própria cooperativa. A cooperativa era forte, coesa, unida. E o prefeito de Acari dava todo o apoio necessário. Fiquei tocado e entusiasmado com o projeto, com as pessoas, com o lugar.
Chegamos mortos de cansaço à nossa pousadinha simpática. Jantei, bebi um pouco de vinho e fui me recolher. Dei boa noite à privada e caí num sono profundo. Ainda estava escuro quando acordei sobressaltado. Tinha algo cobrindo o meu rosto, algo sutil, diferente.Não parecia ser um inseto, mas mesmo assim fiquei ressabiado. Era areia. Muita areia. O lençol estava coberto também. Havia uma abertura entre as telhas e a parede por onde a areia entrava, trazida pelo vento da madrugada. Era o que de pior me podia acontecer. Não, não era. Depois de tomar outro banho e sacudir o lençol, voltei a me deitar, desta vez com a cabeça e o corpo cobertos para evitar a areia. Foi quando a porta foi esmurrada. Desta vez de forma ainda mais violenta do que na noite anterior. E muito mais cedo: eram apenas três da madrugada! O produtor devia estar de porre. Pam! Pam! Pam! A porta chegava e envergar. Levantei de um pulo e gritei em direção a ela: - Já vou! Mas nada. Pam! Pam! Pam! Não parava de bater.
Abri a porta entre puto e atordoado. Não havia ninguém. Era o vento. Cada rajada vinha com uma tonelada de areia. E fazia a porta do quarto parecer uma folha de papel. Coloquei a mala escorando a porta, limpei outra vez a cama e voltei a dormir.
Pam! Pam! Pam! Agora era o produtor, desgraçado, esmurrando a minha porta para iniciarmos outro dia de filmagem.
Nem a imagem da represa das Gargalheiras ao sol nascente conseguiram me reanimar naquele dia. O francês me deu bom dia. Eu grunhi qualquer coisa de volta. A mulher dele, uma bela potiguar de pele morena escura, passeava num cavalo magro, montado em pelo. Ele sorriu pra mim e mostrou a mulher com o queixo: - Voilá, Godiva! Ela percebeu que falávamos dela e sorriu de volta. Faltava um dente importante bem na frente.
Fato em que eu pensaria à noite, bocejando ali ao lado da privada, se a ventania deixasse eu dormir.

segunda-feira, 9 de março de 2009

A Skol na torcida pelo bom humor.

No ar o terceiro comercial da campanha “Redondo é Rir da Vida” da F/Nazca para a Skol.
"Futebol", com versões de 30" e 60”, foi criado por Fabio Fernandes e Eduardo Lima. A produção é da Cine e a direção de Clovis Mello.
Você vê aqui a versão de 1 minuto, recheada de situações hilárias , como a troca de confissões entre um pai e um filho assistindo ao jogo na TV.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Tiro pela culatra?

Criativo, simples e muito bem cuidado. 15 segundos que não brincam com a grana do cliente e vão direto ao alvo. Como diz a Fernanda Romano no Bluebus, deve vir mais bala por aí.



Mas ao que parece este tiro já foi dado pela BBDO com o filme da Choice Fm em 2007.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Zanzoti não! É covardia.

Manoel Zanzoti, conceituado Diretor de Criação das maiores agências brasileiras, lembra como surgiu a simpática baratinha do Rodox inspiradora do texto de abertura do Cinema Curto, aí ao lado.

Zanzoti - o criador
Como seria a voz de uma barata temendo pela vida, se ela falasse?
Eu tinha acabado de fazer um roteiro para o cliente Rodox e decidi fazer uma animação. Mas essa animação deveria ser diferente do que se fazia na época.
Estava empolgado. A idéia foi aprovada pelo Livio Rangan, que era o cliente, e pelo Licínio de Almeida, que era o diretor de criação da Rhodia. Eu tinha voltado de Barcelona. Os quadros do Miró não saíam da minha cabeça. Foi assim que eu imaginei a perrsonagem “Baratinha”.

Miró - a inspiração
Uma personagem com desenho solto, borrões a cada movimento do desenho.
Era o ano de 1972 e eu trabalhava na Standard Propaganda, hoje Ogilvy.
Chamei o Walbercy da Start Filmes e fiz um layout rápido do que eu estava pensando.
O Walbercy vibrou. E o resultado ficou fantástico e, para a época, muito ousado.
Eu estava entusiasmado. Toda vez que contava a idéia para alguém, o Jeferson, um diretor de arte que sentava ao lado da minha sala, ficava imitando a voz de uma baratinha mole e entorpecida.
Depois de quase duas semanas, eu estava convencido: a voz da “Baratinha” era a do Jeferson. E assim nasceu a “Baratinha do Rodox”.
Foi premiada no Festival de Veneza. Deu um grande resultado de vendas e lembrança, apesar de algumas pessoas sentirem pena dela.

A criatura