terça-feira, 10 de março de 2009

Lady Godiva nas Gargalheiras - Toninho Lima



Toninho e a parte 2 da saga do Sebrae.

Pois eu estava contando aqui a história da viagem ao Rio Grande do Norte para a filmagem do comercial do Sebrae.
Então, vamos em frente. Refeito da noite festiva em Currais Novos, depois de tomar café da manhã com um Paulinho Netto insone, seguimos viagem. Paramos em Acari apenas o tempo suficiente para o almoço. É uma cidade bonitinha, parece cenário de novela rural da Globo. Tudo muito bem cuidadinho, mesmo. Parabéns ao prefeito da época que, espero, não tenha tido seu trabalho desfeito pelos sucessores.
O Paulo Netto ainda estava com a corda toda no almoço. De onde o cara tirava tanta energia? Emendou uma longa fileira de anedotas, com o seu jeito próprio de interpretar. Roubou a cena. Foi um dos almoços mais divertidos de que já participei. Dali seguimos direto para a nossa base de trabalho. O produtor desceu da van e disse:
- É aqui. Olhamos todos em volta e não vimos nada. Vimos a represa, enorme, parecia mais mar. Em volta, nada. Subindo uma ladeira íngreme, havia um hotelzinho. Pelo jeito, uma pensão. Mas tinha quartos com banheiro, luxo do qual eu sentiria muita falta nos dias que se seguiriam. Logo de cara, ficamos sabendo que ali não havia vagas para todos da equipe. Mas havia uma pousadinha, a do francês, logo nas margens da represa. Do francês, pensei, só pode ser boa. Era? Bem, ficava num lugar lindo, com uma vista deslumbrante para aquele mar artificial, ao por do sol. Coisa de deixar qualquer francês embasbacado. E o carioca aqui, também teve sua parcela de deslumbramento.

Pousada do Francês.


Fui conhecer meus aposentos. Era rústico, sim, mas bem bonitinho. Uma cama de casal, com lençóis de algodão vagabundo e uma privada ao lado. Sim, uma privada em vez de criado mudo. Até me lembrei de um anúncio antigo que falava de diferenças regionais e que provava isso com a palavra bidê. No Brasil inteiro fica no banheiro. No sul, fica ao lado da cama: é o que todos os outros brasileiros costumam chamar de mesinha de cabeceira. Ali, a privada fazia as vezes. Um pouco mais atrás, ficava o chuveiro.Dava até pra tomar banho sentado na privada. Difícil era evitar os respingos na cama.
Achei tudo muito esquisito, mas estava disposto a gostar do lugar. A primeira noite foi tranquila. Tinha visto as entrevistas que o assistente de direção havia gravado com os moradores do lugar e estava muito entusiasmado com as perspectivas do filme. A primeira providência que tomamos, em comum acordo com o diretor, foi abandonar o roteiro original. A realidade ali superava em muito a nossa imaginação. Havia ali histórias fantásticas, de superação, de união, de conquista de cidadania, todas reais e contadas por seus próprios personagens. Abri várias brechas para depoimentos no roteiro e me preparei para uma filmagem muito mais solta e livre do que os costumeiros comerciais que estava habituado a rodar. Fui dormir cedo, porque queríamos aproveitar o nascer do sol na represa.
Manejei bem a coisa da privada e do chuveiro convivendo com a cama. E o sono venceu a natural estranheza dos aposentos. No dia seguinte, quando o produtor bateu na porta eu já estava na privada, acordadinho. Eram quatro e meia da madrugada, mas eu estava zen.
Vamos filmar! Fui para o café da manhã bem disposto e animado. Primeiro dia de filmagem. Realmente, o lugar era um encanto, as pessoas também, pescadores e suas mulheres simples, mas de uma beleza surpreendente. Os americanos se esbaldaram por aqui na época da Grande Guerra. Nunca vi tantas mulheres de olhos azuis e pele cor de cobre. Crianças lindas e paupérrimas, todas felizes, nos seguiam aonde quer que estivéssemos. Rapidamente viramos a grande novidade do lugar. Foi um longo dia de filmagem, do nascer ao por do sol. Imagens lindas, depoimentos tocantes dos pescadores e das mulheres fortes da cooperativa. O assunto: a fábrica de linguiça de peixe. Isso mesmo! Eles desenvolveram ali, graças aos técnicos do Sebrae, um processamento do peixe e do camarão, para a sua transformação numa das mais procuradas iguarias do estado. Eu provei. Uma delícia. A coordenadora do Sebrae de Natal nos acompanhava na viagem toda. Era empolgada, envolvida com o projeto. Nos contou cada detalhe da implantação do projeto e nos disse que antes aquele povo dali vivia bem próximo da miséria. Vendiam o peixe a quilo, para atravessadores que levavam todo o lucro. A fábrica de linguiça de peixe mudou o destino daquela gente. E daquele lugar. Todos tinham agora casa recheada de eletrodomésticos e os filhos tinham uma boa escola, da própria cooperativa. A cooperativa era forte, coesa, unida. E o prefeito de Acari dava todo o apoio necessário. Fiquei tocado e entusiasmado com o projeto, com as pessoas, com o lugar.
Chegamos mortos de cansaço à nossa pousadinha simpática. Jantei, bebi um pouco de vinho e fui me recolher. Dei boa noite à privada e caí num sono profundo. Ainda estava escuro quando acordei sobressaltado. Tinha algo cobrindo o meu rosto, algo sutil, diferente.Não parecia ser um inseto, mas mesmo assim fiquei ressabiado. Era areia. Muita areia. O lençol estava coberto também. Havia uma abertura entre as telhas e a parede por onde a areia entrava, trazida pelo vento da madrugada. Era o que de pior me podia acontecer. Não, não era. Depois de tomar outro banho e sacudir o lençol, voltei a me deitar, desta vez com a cabeça e o corpo cobertos para evitar a areia. Foi quando a porta foi esmurrada. Desta vez de forma ainda mais violenta do que na noite anterior. E muito mais cedo: eram apenas três da madrugada! O produtor devia estar de porre. Pam! Pam! Pam! A porta chegava e envergar. Levantei de um pulo e gritei em direção a ela: - Já vou! Mas nada. Pam! Pam! Pam! Não parava de bater.
Abri a porta entre puto e atordoado. Não havia ninguém. Era o vento. Cada rajada vinha com uma tonelada de areia. E fazia a porta do quarto parecer uma folha de papel. Coloquei a mala escorando a porta, limpei outra vez a cama e voltei a dormir.
Pam! Pam! Pam! Agora era o produtor, desgraçado, esmurrando a minha porta para iniciarmos outro dia de filmagem.
Nem a imagem da represa das Gargalheiras ao sol nascente conseguiram me reanimar naquele dia. O francês me deu bom dia. Eu grunhi qualquer coisa de volta. A mulher dele, uma bela potiguar de pele morena escura, passeava num cavalo magro, montado em pelo. Ele sorriu pra mim e mostrou a mulher com o queixo: - Voilá, Godiva! Ela percebeu que falávamos dela e sorriu de volta. Faltava um dente importante bem na frente.
Fato em que eu pensaria à noite, bocejando ali ao lado da privada, se a ventania deixasse eu dormir.

Um comentário:

  1. Mais um texto delicioso que nos prende da primeira a última letra!!!
    Mais, Toninho! Escreve mais!!!!

    ResponderExcluir