terça-feira, 21 de abril de 2009

Fernando Zagallo - fazendo cinema e amigos.

Um dos mais requisitados diretores de produção do mercado, o divertido Fernando Zagallo se diverte sempre que pode trabalhando em longas ou comerciais, e afirma que se publicidade fosse arte, telegrama seria literatura.

Para um diretor de produção, fazer publicidade é só pra pagar contas?
Hoje em dia sim, pois em algumas produtoras - por incrível que pareça as maiores - estão pagando muito pouco. Antigamente até dava para juntar uma grana. O lado positivo da publicidade, para os técnicos, é o contato com novas tecnologias que podem ser usadas de forma mais cirúrgica em trabalhos autorais como num longa, clipe etc...é para alguns o exercício da paciência, pois as relações humanas são extremamente falsas, mesmo que rápidas.

O que é mais fácil de encarar: oito semanas de filmagem ou dois dias?
Os dois primeiros dias e os dois últimos das oito semanas são os piores. Filmar só dois dias é muito pouco para a equipe ter um entendimento mínimo do trabalho. É claro que há exceções. Quando os cabeças dos departamentos se conhecem muito, tudo fica mais fácil. Dá até para se divertir.

Diretor de longa (somente) é mais pouca prática que o publicitário?
Absolutamente, uma equipe de filmagem é o conjunto mais crítico que se pode formar. A “pouca-praticisse” é um fenômeno que ocorre de forma mais acentuada nas relações humanas. Tecnicamente, se o diretor escolher bem o fotógrafo, o diretor de arte e depois o montador, fica mais fácil de obter um bom resultado final. Mas se não se relacionar com cada membro da equipe, fica tudo muito difícil. Fazendo uma relação do diretor com um maestro, imagina eu regendo uma orquestra sinfônica sem a menor possibilidade de diálogo com os músicos. Danço no segundo dia. Imagina essa situação acontecendo oito semanas seguidas? É trágico. Mas em publicidade nego agüenta, é só pensar que vai emitir a nota daqui a pouquinho.

Onde você se diverte mais, no longa ou no comercial?
Eu tento me divertir sempre e na maioria das vezes consigo. Por sorte eu trabalho quase sempre com amigos, tanto em longas quanto em publicidade. Tirando a urgência e os egos, fazer publicidade também é divertido. Agora, quando não existe cumplicidade num longa, é a pior situação possível. Parece que não vai acabar nunca, é uma tortura. Por isso que é uma panelinha mesmo, a primeira avaliação é técnica, a segunda é a amizade. É igual escolher o time no recreio do colégio, se você ganha o par ou ímpar você escolhe primeiro o amigo que melhor joga futebol.

Conte histórias divertidas (e publicáveis) acontecidas em sets de filmagem.
Essa é foda, pois sempre vai ferir suscetibilidades, vamos lá:
Estávamos fazendo um comercial para um cliente estrangeiro em Natal. Na preparação choveu muito, os gringos apavorados, aquele climão, um corre-corre danado. Passou a chuva... Tínhamos seis diárias de filmagem e tudo corria muito bem, todos muito felizes. Filmávamos em Genipabu, em suas dunas maravilhosas, porém próximo ao presídio da cidade. É claro que na madrugada do segundo para o terceiro dia aconteceu uma fuga grande no presídio e os presidiários foram se esconder nas dunas. De dia, ficavam escondidos debaixo dos cajueiros e outras vegetações que formavam uns oásis lindos. De noite, tentavam fugir. Eu conversei com o produtor gringo, expus a situação que, segundo o chefe de policia local, estava controlada da seguinte forma: “ À noite sentamos a porrada neles, os que sobrarem ficam escondidos de dia, aí vocês trabalham e de noite nós voltamos”. Era uma situação muito delicada, mas pensando friamente, ninguém iria roubar equipamentos pesados durante uma fuga, o perigo era fazerem um refém que seria um de nós, é claro. Portanto, decidimos aumentar a segurança durante o dia e tacar pau nas filmagens. Qual a graça? Sei que tenho um humor muito ácido... Foi exatamente quando acabaram as filmagens, durante a desproducão, compramos umas cabeças de negro (explosivos pequenos usados na época de São João) e simulamos um ataque dos presidiários. Foi um pandemônio, com pessoas muito fortes e arrogantes em pânico total.

No longa que eu fiz do Murilo Salles na Copa do Mundo de 94, estávamos filmando uns garotinhos numa quadra de basquete tentando jogar futebol, no Harlem, em New York.
O clima era bem pesado, pois todos nós éramos bem branquinhos, e só melhorou quando nos apresentamos como brasileiros. Eu tinha um assistente que também dirigia a van. Esse cara muito bem intencionado, tentando nos ajudar, acabou entrando em quadro, atrapalhando o fotógrafo que estava pendurado no alambrado que fica em volta da quadra.
Nosso fotógrafo, de forma muito espalhafatosa, xingou o rapaz aos gritos. Intervi pedindo pro cara ir para a van que eu ficava no set até as coisas se acalmarem. Mas quando cheguei no carro ao final desse plano, o fotógrafo estava se defendendo do ataque do assistente enfurecido e tive que apartar a briga.

Quantos longas e quantos comerciais na carreira? E com que diretores trabalhou?
Fiz as contas rapidamente: dos longas que prestaram para alguma coisa (eu sempre tento aprender uma coisa nova), foram mais de 40. Trabalhei com caras como o Ruy Guerra, o Cacá Diegues, o Andrucha, o Breno Silveira, o Babenco, e muitos outros. Em publicidade não tenho a menor idéia, juro pra você.

O que todo cineasta deveria saber sobre publicidade?
Que se pode ter acesso a novas tecnologias, mas ter certeza que se publicidade fosse arte, telegrama seria literatura.

O que todo publicitário deveria saber sobre cinema?
Acho que eles já sabem tudo, pois as referências quase todas são de lá. O publicitário bom é sensível e tem apuro técnico e artístico, só que usa essas características para a venda de um produto ou idéia, está certo, é muito bem pago para isso.

O que todo diretor deveria saber sobre Zagallo?
Que ainda tenho muita disposição para trabalhar, só não me venham com barbaridades, pois todos somos responsáveis pelo resultado na tela e também financeiro.

2 comentários:

  1. ´sonia regina piassa24 de abril de 2009 12:53

    Discordo veementemente do Zagallo, coparar um telegrama com um filme de 30" ou 60" que conta uma história com começo meio e fim e que ainda vende produto é uma arte sim....e das mais admiráveis, esse Zagallo acha que sabe alguma coisa de cinema mas de publicidade ele não sabe absolutamente N A D A.
    A grande maioria dos diretores que hoje fazem os filmes de longametragem "de sucesso" começaram suas carreiras em publicidade, só para lembrar...Fernando Meirelles, Breno Silveira, Roberto Moreira, Murilo Salles, João Falcão, Carlos Manga, Marcos Jorge, João Daniel que acabou de rodar seu longa e muitos outros. Eles fizeram tantas obras publicitárias cheias da mais pura arte que se lançaram para o cinema onde podem mostrar sua sensibilidade de contruir imagens de uma forma mais livre pois não tem produto para vender, essa é a única difrença, na minha nada modesta opinião.
    Quantos jovens se inspiraram nos correios e telegrafos para entrarem nas universidades de literatura e seguir carreira de escritor? Pergunte agora quantos jovens se inspiram na obra audiovisual publicitária para seguir suas carreiras de cineasta?
    E eu repondo sem nenhum medo de errar milhares todos os anos.
    Foi a publicidade que manteve o parque de equipamentos brasileiro vivo, quando o maluco do Collor acabou com o cinema nacional, foi a publicidade que formou as grandes equipes técnicas e que as mantem atualizadas.
    Amo o cinema mas não dá para ler tanta bobagem e ficar calada.
    Aliás o que é mesmo um telegrama Zagallo Dino?
    Abraços
    sonia regina piassa

    ResponderExcluir
  2. é isso mesmo Sonia, quem faz uma coparação dessa, publicidade com telegrama está mesmo mais para Dinossauro.
    Traatr a publicidade como um trabalho menor depois de dizer que perdeu as contas de quantos filmes já fez não nos faz lembrar o Cuspe no prato qu come?
    abraços
    Dirceu

    ResponderExcluir