quinta-feira, 21 de maio de 2009

Estrela sobe: um dos fotógrafos mais prolíficos do cinema nacional, relembra sua trajetória na arte publicitária.

Qualquer cineasta ou diretor de publicidade que apresente um filme fotografado por Raimundo Nonato Estrela Júnior como cartão de visitas, certamente vai arrebatar o olhar de seu cliente. Diretor de fotografia habitual de realizadores como José Joffily e José Alvarenga Jr., Nonato Estrela debutou no cinema ainda na era Embrafilme. Após um mergulho na TV, ele se reinventou na Retomada, espreitando o intimismo em longas-metragens autorais e flertando com a objetividade na seara do filme-pipoca. Nesta entrevista, ele relembra seu passado no mercado
publicitário e as manhas que aprendeu clicando comerciais.

O que a publicidade te ensinou sobre a arte de fotografar?
NONATO ESTRELA: A publicidade me ensinou a pensar mais os detalhes. Você tem que ser mais criterioso com isso. Você desenvolve um pensamento e uma preocupação com pequenos detalhes e, com o tempo, você tem que conciliar rapidez e qualidade, sem esquecer os detalhes. Você trabalha para várias pessoas, não trabalha para um só como no cinema . Agradar a vários é mais difícil...E outra coisa é a quantidade de filmes diferentes que você faz. Cada produto sugere um estilo, uns mais limpos outros mais sujos, uns mais sofisticados e outro mais populares. Isso faz você ficar mais experiente.

Que lições do cinema você levou para a publicidade?
ESTRELA: A continuidade de luz e o tempo dramático. Sempre os coloristas me disseram isso. Os meus cortes de luz entre os takes são iguais. É só copiar e colar. O drama me ensinou a obedecer o eixo de luz, acho que levei isso para publicidade principalmente depois que os comercias passaram a usar as referências cinematográficas.
Respeitar a principal fonte de luz é fundamental. Eu vim do cinema . Foi lá que aprendi a fotografar, fui assistente de grandes fotógrafos, aprendi muito com eles.

Quando começou sua incursão no cinema publicitário? O que a publicidade representou na era
ESTRELA: Na era Collor, eu voltei para a TV com o Guel Arraes. Já tinha trabalhado com ele em "Armação Ilimitada". Guel me chamou de volta. Fiz Programa Legal, Tv Pirata, Casseta e Planeta. Tudo estava começando...
Junto pintou a publicidade. Juarez Precioso me deu a oportunidade de fotografar um comercial, o que foi maravilhoso. Adorei fazer e conheci um instrumento chamado telecine, que depois o cinema incorporou. Quando o telecine chegou no cinema eu já conhecia. Tudo está interligado, tudo audiovisual, tudo farinha do mesmo saco...
São diferentes formas usando a mesma matéria prima.







Qual foi a situação mais difícil com a qual você já se deparou em um set de cinema e em um set de publicidade? Como resolveu esse desafio?
ESTRELA: Fazer dia de noite e noite de dia. Sempre entramos em situações difíceis em ambas atividades. Em um longa recente, chamado "Sem Controle", da Cris Damato, tínhamos dez dias de filmagem na mata, à noite. Havia uma cena de perseguição no escuro total. O problema era: se filmarmos do jeito que estava escrito no roteiro, eu teria que iluminar quilômetros de mata e passaríamos um mês para resolver essa questão. Se filmássemos com um efeito fotográfico chamado noite americana (dia por noite) resolveríamos em cinco dias. O produtor adorou e a
Cris também. Fiz uns testes, funcionou e resolvemos dessa maneira. Acho que ficou bacana e deu um charme ao filme. Em publicidade, uma decisão como essa fica mais difícil, tem muita gente para opinar, a produtora,a agência, o cliente...

Você é o fotógrafo-assinatura de José Joffily no cinema. Como é sua parceria criativa com o diretor de "2 perdidos numa noite suja"?
ESTRELA: Essa parceria envolve convivência, amizade e a nossa química. O Joffily já foi fotógrafo de cinema e de jornalismo. Aí, fica mais fácil. Ele entende a minha aflição. É um diretor que pensa com a câmera. O diretor é um ser solitário. A decisão final esta nas mãos dele - a criação pode ser coletiva mas a decisão é de um so, é um ato solitário. Todos os departamentos trabalham antes: figurino, maquiagem, cenografia, arte. Mas a direção e a fotografia são feitas na hora. Por mais ensaio que se faça, é nos movimentos dos atores que se cria o drama. É a arte do fazer agora. Nós sabemos disso e respeitamos um ao outro nesse momento. A gente se entende no olhar.

Que comerciais você consideraria uma obra de arte?
ESTRELA: Têm vários comercias que adoro. O problema é que comercial não tem nome ou titulo como um filme . Tem um antigo do perfume Egoiste que adoro. Tem um da Telecom Argentina em que todos os personagens bocejam, não canso de ver no Youtube, acho super inteligente. Dos diretores, gosto do Michel Gondry. Tem um comercial da Smirnoff dele que é o máximo. O Ridlley Scott, eu adoro. Pode ser meio antigo mas eu adoro. Dos brasileiros, não vou falar que posso chatear os amigos se esquecer alguém.

O que um fotógrafo iniciante na publicidade deve conhecer de referência estética para produzir suas imagens?
ESTRELA: Fotógrafo iniciante deve ter fome de imagem, tem que comer livros de fotos, produto, jornalismo, pintura e muito cinema. No cinema, tem tudo. Tem música, arte, pintura, figurino, luz muita luz... Eu diria: vá ver "Cidadão Kane", "... E o vento levou", "Casablanca", "Lawrence da Arábia", "Apocalypse Now", "A marca da maldade"... Sei lá, há tanta coisa . Eu me lembrei de um filme maravilhoso, especialmente a fotografia, "Cinzas no paraíso", do maravilhoso fotógrafo Nestor Almendros*. Esse todo fotógrafo tem que ver.


* O filme de Terrence Malick deu ao catalão Nestor Almendros o Oscar de Melhor Fotografia em 1979.

2 comentários:

  1. O Nonato é fera. Parabéns pela entrevista.

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  2. Nonato

    Lembro da gravação do comercial do cigarro Maulboro que você teve que ficar dentro de um buraco e os cavalos passava por cima da sua cabeça em quanto gravava, sei que você nunca esqueceu porque foi muito importante para você naquela época.


    Lembro da gravação do comercial do cigarro Maulboro que você teve que ficar dentro de um buraco e os cavalos passavam por cima da sua cabeça em quanto gravava, sei que você nunca esqueceu porque foi muito importante para vocêna quela epoca.

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