quarta-feira, 27 de maio de 2009

O dia em que Steve Jobs recusou o filme “1984”.

Manoel Zanzoti, um dos inspiradores do Cinema Curto, 25 anos depois a sua genial versão para a reunião de apresentação do filme "1984".


Sala de reunião lotada da agência Chiat/Day para a projeção do filme de lançamento “Apple 1984”.
Reunidos Steve Jobs, cliente, Lee Clow, diretor de criação e criador do filme, Ridley Scott, um dos diretores mais renomados do mundo e diretor do comercial.
Em volta, um monte de aspones.
A luz apaga-se e começa a projeção do filme.
Todos tensos.
A projeção repete-se por mais duas vezes.
As luzes se acendem. Silêncio na sala.
Pra quebar o gelo, Lee Clow pergunta ao Steve:
– Que tal, gostou?
Steve balança a cabeça de um lado para o outro:
–Tenho algumas restrições.
Lee Clow –Restrições? Que tipo de restrições?
Steve –Não gosto da cena desse pessoal nesse templo. Parece a Igreja Renascer.
Outra coisa, todos carecas, parecem skinheads.
Eu não quero problemas com ninguém, a minha empresa não tem preconceitos.
Lee Clow – Mas Steve, isso é só para dramatizar.
O Ridley Scott, calado. Só observando. A galera muda.
Steve – E… não é só isso.
Já meio alterado.
– Essa mulher correndo com um enorme martelo nas mãos, sendo perseguida pelos policiais. Arrebenta a tela, porra! Isso incita a agressividade, não passa no Conar.
Lee Clow tenta argumentar, mas é abafado pela voz já alterada do Steve.
– Mas o que me incomoda mesmo é a ideia.
Lee Clow e Ridley Scott falam ao mesmo tempo – A ideia???
Steve: – Sim, a ideia! Essa ideia é do George Orwell, porra!
Isso é cópia.
Ridley Scott já vermelho de raiva, já perdendo a paciência:
– Esta é uma releitura do livro “1984”, uma licença publicitária. Tem tudo a ver com o nosso lançamento.
Lee Clow, interrompe, falando alto – Eu também tenho uma restrição.
Steve e toda a mesa olham para ele.
Lee Clow, completa – Essa marca.
Todos perplexos.
Lee Clow – Uma maçã? Isso é óbvio demais. A empresa chama-se Apple. E mais, uma maçã mordida fica podre rapidamente.
O Ridley Scott, completa – E essas cores dentro. Isso é gay!
Silêncio.

Tem filmes que podem ser lembrados toda a vida e outros que são mortos num piscar de olhos.

19 comentários:

  1. Sérgio Prazeres27 de maio de 2009 23:16

    Boa Paulo!!!

    ResponderExcluir
  2. Gênio. Divertido. Silêncio!!! ;-)

    ResponderExcluir
  3. Gosto dessa postura de agência que não fica bajulando cliente. Fala e pronto. Só me preocupa o criativo não entender quando a crítica é construtiva e ficar aquela sensação de não saber ouvir o não como resposta ao seu trabalho.
    No geral, o filme é muito bom!

    PS: gay foi sensacional ;-)

    ResponderExcluir
  4. Adorei! Muito bom mesmo!


    Se fosse no Brasil, seria assim mesmo, pois esta é a triste realidade da mentalidade da maioria dos empresarios brasileiros.

    ResponderExcluir
  5. Só não entendi essa parte "Parece a igreja Renascer". Que igreja Renascer?? (é q a única que conheço nem existia nessa época!)

    ResponderExcluir
  6. Pô, Rodrigo, muito generoso seu comentário: "No geral, o filme e muito bom"
    No geral??? E no particular, onde o filme não é bom? Faça uma análise ai para nós, ignorantes. Ponha para fora todos os ensinamentos que você obteve no MBA da Wharton e que te autoriza a sr tão categórico.
    Você tem razão numa coisa, Rodrigo: há mesmo criativos que não são humildes, que não sabem ouvir um não. Isso é commodity. Mas,infelizmente, há uma multidão de gerentecos que não conseguem enxegar um comercial brilhante quando vêem um e ficam procurando defeitos para se cobrir.
    Felizmente, filmes como esse são aprovados diretamente pelo dono da empresa, por um EMPRESÁRIO de visão e não pelo baixo clero mediocre do marketing das empresas.

    ResponderExcluir
  7. Brilhante, Zanzoti. O mundo carece de pessoas inteligentes. E, por outro lado, como esse mundo já está cheio de puxa-sacos, deixo meu comentário anônimo.

    ResponderExcluir
  8. não sou do ramo, meu nome não interessa. então fico no anonimato.

    os criadores estavam ávidos por terem seu comercial aprovado pela empresa de marca óbvia e cores gays (aceitaram o trabalho e deram o sangue). na medida em que tiveram seu trabalho rejeitado, 'ativaram estas características do cliente' que até então aceitavam; ou para as quais não atinavam.

    nem a maçã é óbvia, nem as cores, se gays, implicaram em não aceitação da marca e do produto. uma combinação de qualidades irrefutáveis.
    ao ponto de talvez não haver agência de bajuladores (é o que é todo o 'pessoal de mídia'), publicitários, que não tenham escolhido Macs para 'compor o seu mais íntimo cenário'.

    o problema é que, operadores da bajulação que são, eles também querem 'bajulação' para eles, claro.

    daí não aceitarem quando alguém, absolutamente criativo, os desmascara.
    Steve Jobs, põe todo o pessoal desse (sub)ramo no bolso. t-o-d-o!
    tanto quanto empresário, como 'criativo'.

    ResponderExcluir
  9. Mane,
    vc continua brilhantemente bem humorado
    parabens, continue assim sempre
    do seu amigo apple addicted, jacob

    ResponderExcluir
  10. Paulinho,
    muito bom! Sintetiza bem a "palpitaria" que rola nas apresentações. Me fez lembrar nossos tempos de Globotec.

    ResponderExcluir
  11. Muito engraçado! Me faz lembrar um caso que aconteceu na Globo: a equipe de promoção apresentou a um diretor da emissora a chamada do filme "Jesus de Nazareth" (Franco Zefirelli). A chamada de um minuto terminava com o Cristo morrendo na cruz. O tal diretor, uma cavalgadura bem-remunerada, berrou:
    -"Cristo morrendo não pode! Vocês estão contando o final do filme!"

    ResponderExcluir
  12. Sensacional !!!

    É crítico!
    É engraçado!
    É contemporâneo!
    É criativo!
    É Zanzoti!

    ResponderExcluir
  13. Genial como sempre!

    Parabéns Zanzoti!

    ResponderExcluir
  14. Para: Arte Final

    Não, não ! Saia de 1984!

    E é justamente por isso que este é um texto genial!

    Hoje, o que mais encontramos por ai são os famosos "Srs. Eu acho que...".
    E por Deus, quem é que pode mostrar potencial criativo com tantos "descrentes" na força do que é inusitado? Novo? Diferente?
    Hoje, todo mundo sabe de tudo! Ninguém arrisca ou acredita. Não por falta de quem possa faze-lo, mas pelo excesso de quem pode interrompe-lo.

    Este brilhante texto do Zanzoti, é um retrato escanrado do que nós criativos (no meu caso, aprendiz) vivemos hoje.

    Acredito que o texto pode ser resumido em: "o filme 1984 é umas das obras mais criativas e representativas da história. Isso por que alguém acreditou! Alguém ou alguns decidiram ousar. Inovar!
    Mas o que aconteceria com essa idéia nos dias de hoje?"

    E foi a sua visão crítica sobre esta pergunta que o Zanzoti respondeu. E, temos que admitir, com muita criatividade.

    Dizer que não vai dar certo é fácil. Que não será compreendido, então...
    Quero ver quem tem peito para arriscar. Para acreditar no novo.

    Estes sim são poucos.

    ResponderExcluir
  15. Parabéns pelo Post!
    Falou em nome de muitos.
    Mas, brilhante e corajosamente.

    ResponderExcluir
  16. publicitários são sempre geniais. kkkkk
    essa talvez seja a palavra mais usada aqui. ela mesma, ou outros superlativos equivalentes.
    por trás de tudo, os valores mais sórdidos, tidos como 'indiscutíveis'.
    os argumentos mais freqüentes são aqueles que 'repisam' 'respostas' corporativas às frustrações cotidianas da alcova da produção, levando água para o moinho de "nossos geniais". é tudo uma piada, nem dá pra chorar. publicitários não sobreviveriam num mundo com um mínimo de inteligência e senso crítico. só mesmo nessa feira livre em que vivemos essa 'visão de mundo' viceja.
    e viva Nisan...

    ResponderExcluir
  17. Mané,

    Se esse texto cair nas mãos do Steve Jobs
    ele pode te punir com uma proposta
    milionária. Esse é o Zanzoti!

    ResponderExcluir
  18. Marília, é eu mesma29 de maio de 2009 08:51

    Mané,

    viajando no (meu) passado topei com esta hilariante versão que, por si só, já daria um grande filme.

    Você continua o mesmo e isso é muito legal.

    beijos,
    Marília

    Adoro a idéia de ter escrito depois do Edmar!

    ResponderExcluir