quarta-feira, 24 de junho de 2009

João Daniel e o voo de "Besouro"

Com estreia prevista para outubro, já está rolando na internet e nos cinemas o trailer de “Besouro”, o longa de estréia de João Daniel Tikhomiroff.
Dá pra sacar que vem aventura e das boas. No sertão baiano da década de 20, a população negra que ainda sofre com a escravidão vê surgir um herói: Besouro, um capoeirista, com algo mais: o homem “avoa”.
E é nesse aspecto que o trailer se concentra, através de belas sequências, de luta e coreografia de vôos no melhor estilo dos filmes de Ang Lee e companhia.
“Besouro” promete altos voos para o veterano estreante João Daniel.

domingo, 21 de junho de 2009

Michel Gondry - o brilho eterno de uma mente que lembra de muita coisa.

Está agendado para amanhã (22/06) um encontro da imprensa carioca com Michel Gondry, diretor de "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" (2004) e de uma penca de comerciais e videoclipes memoráveis. Mas, o CINEMA CURTO saiu na frente e entrevistou o diretor de véspera, por telefone. Atualmente envolvido com a produção da aventura "The Green Hornet", baseada no super-herói Besouro Verde, o diretor francês de 46 anos vem ao Brasil para promover a exposição "Rebobine, por favor", em cartaz no CCBB do Rio até 9 de agosto. Neste bate-papo, Gondry apresenta suas observações sobre o requinte estético que a publicidade pode ter quando feita com alguma liberdade autoral.

Sua obra é definida como uma reação do cinema de invenção na grande indústria. Na sua publicidade, há espaço para a autoralidade?
MICHEL GONDRY: Minha publicidade sempre obedeceu os interesses das agências que me contratavam. No entanto, elas me contratavam esperando um tipo de filme que não fosse convencional. Esperavam alguma experimentação. E eu tentei imprimir liberdade nos filmes que dirigi. Fui sempre muito criterioso na seleção dos comerciais que dirigi. Até hoje, nunca aceito rodar mais do que dois comerciais por ano.

Por quê?
GONDRY: Faço isso como forma de macular meus hábitos de direção e meu olhar com os vícios da propaganda. Não ponho emoção naquilo que dirijo para a publicidade, pois sei que, por mais liberdade que eu tenha, fica em primeiro lugar o compromisso de criar uma boa peça de venda.



"Brilho eterno de uma mente sem lembranças" é definido por alguns críticos como "O" filme desta década. Que conquistas este filme lhe trouxe, além do Oscar de melhor roteiro conquistado em 2005?
GONDRY: O problema de um acerto no cinema é que as pessoas ficam esperando algo melhor, ou pelo menos parecido, quando você faz outro filme. Como eu queria fazer um outro filme que fizesse as pessoas esquecerem "Brilho eterno...". Não saberia dizer se a memória é o eixo central dos meus filmes. Sou um nostálgico. E não vejo isso como uma constatação positiva. Nostalgia é um sentimento agridoce que nos projeta à infância. É da infância que vem a minha primeira memória cinematográfica, o filme "A viagem de balão" (1960), de Albert Lamorisse, que vi aos 7 ou 8 anos.

O comercial da Lacuna Inc. com Tom Wilkinson.


Foi a partir de seus vídeos musicais, em especial "Human behavior", que o senhor foi projetado mundialmente no mercado audiovisual, selando uma longa e calorosa parceria criativa sua com cantora islandesa Björk. Qual é a importância dela para sua carreira?
GONDRY: Björk enxergou detalhes da minha alma que eu desconhecia e deixou que eu crescesse com seu sucesso. Qualquer mérito dos clipes que dirigi deve ser dividido com ela, que colaborou para as escolhas estéticas que fiz.

"Human behavior" - Björk
video

Seu cinema virou tema de um livro nacional: "Ciência do sonho - A imaginação sem fim do diretor Michel Gondry", de Marcelo Rezende, publicado pela editora Alameda em 2008. Como define sua relação com o nosso cinema ?
GONDRY: Há alguns anos, eu vi um filme brasileiro fascinante, em preto e branco, sobre um rapaz que abre mão de sua satisfação amorosa para crescer na classe média. Como era mesmo? Ah! "São Paulo S. A." (de Luís Sérgio Person, lançado em 1964). São Paulo, onde estive algumas vezes, é um lugar incrível, uma metrópole onde a publicidade, em que eu também trabalho, acontece. Minha curiosidade com o Rio é a sensação de que aí vou encontrar pessoas mais interessadas em falar de sentimentos. Adorei um filme de vocês em que uma senhora espia a vizinhança a partir de uma janela, ajudando a polícia a desvendar um crime: "O outro lado da rua" (com Fernanda Montenegro). Em São Paulo, vi coisas boas como um documentário sobre Tom Zé. Vamos ver o que verei aí.

Seth Rogen será o Besouro Verde. O que você promete para esta transposição do herói imortalizado na TV por Van Williams? Será uma comédia?
GONDRY: É impossível ver Seth Rogen em um filme sem associá-lo a humor. Mas quero um caminho diferente para "The Green Hornet", quebrando o padrão da comédia. Quero que a aventura do Besouro Verde seja um filme cheio de ação.

Como foi sua experiência com Jim Carrey nos sets?
GONDRY: Durante as primeiras filmagens de "Brilho eterno...", eu percebia que Carrey mudava quando desligávamos a câmera, estampando uma virilidade que sua persona recorrente nas comédias não tem. Foi aquela outra figura que eu busquei. Alguém que não reagisse à câmera, e sim à sua colega Kate Winslet, às pessoas. Estávamos contando uma história sobre perdas. Histórias sobre perdas e conquistas devem sempre ser contadas levando em consideração o fato de que esses dois verbos, "perder" e "conquistar" envolvem o outro.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Meu filme inesquecível quase foi esquecido.

De volta, Toninho Lima fala de seu filme inesquecível.

Eu era estagiário. O que, na época em que entrei no negócio da publicidade, era pouco mais que uma ameba, menos que um zigoto. Se mandassem você comprar cigarros, você ia. Se o redator pedisse a você pra buscar o Aurélio no revisor, você ia. Se ele pedisse carona, mesmo que morasse no outro extremo da cidade, você dava. De modo que, no dia em que o diretor de criação me avisou que eu iria a uma filmagem, fiquei apoplético, siderado. Pela primeira vez, desde que eu pisei pela primeira vez na agência, fui considerado como ser vivente.
Filmagem? Onde? Era em Angra dos Reis. Um filme para os cigarros Havaí, um mata-rato da Philip Morris. Nós iríamos para Angra e dormiríamos lá para filmar bem cedo, no mar. Caraca! Ia ter até hotel pra mim? Nem dormi aquela noite de excitação e expectativa. A turma da faculdade não ia acreditar. Eu, participando de uma filmagem de comercial. Minha mãe nem entendeu muito bem a coisa: você vai aparecer na tv? Não, mãe, vou só acompanhar a filmagem.
O filme era, digamos, um tanto rústico. Eu achei meio bizarro, mas não cometi a deselegância de comentar isso.
Bem, o autor do roteiro era meu chefe (e viria a se tornar meu ídolo pouco depois). A ação se passava num barco, uma traineira de pescador, em que o nosso herói, um cara durão e boa pinta, era perseguido por bandidos, meio piratas, coisa assim. Os piratas atiram uma bomba no barco dele. Ele percebe a bomba e a pega na mão. Depois, tira um cigarro Havaí do maço e o acende no pavio da bomba. Joga a bomba de volta para o barco dos bandidos, que explode. A música do seriado dos anos 60, Hawai 50 acompanha toda a sequência. Tá-tá-tá-tá-táááá... Assinava
alguma coisa como “Havaí, para homens de ação.”
Dia seguinte, sol nascendo, estávamos embarcados numa velha traineira, nosso set de filmagem. Num outro barco, uma lancha meio velhusca, estavam os atores que faziam os bandidos. Esta lancha se aproximava cada vez mais da nossa traineira, onde um ator, de quepe de capitão, manobrava o timão, fazendo trejeitos de filme de ação.
A cena, um tanto complicada, porque precisava sincronizar a velocidade dos barcos e a ação dos atores envolvidos, foi rodada algumas vezes até dar certo. O diretor era o Carlos Alberto Vizeu, um cara muito bacana, mas dono de um mau-humor engraçadíssimo. Em vez de vociferar, ele meio que choramingava. Quando ele considerou que a ação estava bem ensaiada, choramingou mais um pouco, reclamou da demora da claquete e pronto: fomos para a cena da explosão da bomba.
Eu estava louco para ver aquilo. O barco dos bandidos emparelhava com a traineira e eles atiravam a bomba. O nosso audaz capitão pegava a bomba, acendia o cigarro Havaí e a devolvia, explodindo o outro barco.
Como ficou a cena? Bem, eu só vi na televisão. Veiculou muito naqueles bons e saudosos anos 70.
Na hora da cena pra valer eu desci para uma espécie de porão da traineira, atrás de um banheiro. Estava apertado para fazer xixi. Ouvi um estampido quando estava na escadinha, voltando ao convés.
Não vi como foi rodada a tal cena. Até hoje nunca mais tive a oportunidade de acompanhar a filmagem de um comercial com um barco explodindo. Menos ainda com um herói que acende o cigarro numa banana de dinamite com o pavio aceso.
Vai ver é por isso que eu quase ia esquecendo desse filme.

domingo, 14 de junho de 2009

O redator Zoca Moraes lembra o amigo Zé Rodrix.

O Zé que eu conheci.

Quando criança minha mãe não permitia novela em casa.
No lugar de “O Direito De Nascer”, assistíamos à “Viagem Ao Fundo Do Mar” e “Manda Chuva”. Ao invés de “A Deusa Vencida”, acompanhávamos a saga da Família Robinson na farsa intergalática representada pelos mais de 80 episódios de Perdidos no Espaço.
Estamos falando dos anos 60 em toda sua extensão quando os dramalhões eram exibidos por duas emissoras extintas: Tupi e Excelsior.
Basicamente, sintonizávamos a TV Record.
Dos Festivais da Canção, da Sessão das Três, do Pullmann Jr, da Família Trappo, da Praça da Alegria, do Capitão 7 e tantos outros clássicos desaparecidos.
A Globo sempre foi uma alternativa alienígena para mim, o que pode soar estranho vindo de alguém que trabalha em propaganda.
Por isso, posso afirmar que foi sem querer que “topei” com Zé Rodrix pela segunda vez.
Apesar da proibição oficial e de minha repulsa por essa TV produzida em terras estranhas, simplesmente adorava o tema de “O Espigão”, criado pelo Zé.
Por diversas vezes comentei sobre isso com ele.
“O Espigão” foi uma novela levada ao ar no início da década de 70, para o horário das 10 da noite.
Não conheço a trama, mas me permito dizer que a trilha de mesmo nome, composta por um Zé, pós Sá e Guarabira, era monumental.
Por que me refiro a um segundo encontro, sem ter, sequer, relatado o primeiro?
É o que farei agora.
Foi nas páginas da Rolling Stone.
Sim, entre 72 e 73, um influente grupo de jornalistas cariocas, comprometidos com a contra-cultura, publicou essa que já foi uma revista extremamente relevante, sobretudo quando ainda sediada em São Francisco.
Luis Carlos Maciel, Ana Maria Bahiana e Ezequiel Neves capitaneavam o projeto pirata, numa época em que todo jovem roqueiro fazia qualquer coisa para possuir um bootleg.
Eram tempos de ditadura Médici, mas, apesar disso, a Polícia Federal, governos estaduais e municipais, não organizavam espetáculos histéricos de caça à pirataria.
Foram 36 números.
Em alguns deles, li sobre o rock rural.
Mas para mim o Zé sempre esteve muito além dessa classificação que tragou os talentos de Luis Carlos Sá e Gutemberg Guarabira.
Mais do que Mestre Jonas E A Baleia, a maior expressão das virtudes musicais de Zé, em minha opinião, sempre foi Blue Riviera, que meu amigo George Alonso acreditava ser uma homenagem ao desaparecido bar na esquina da Consolação com a Paulista.
Bobagem, pois acredito que quando composta, Zé ainda vivesse no Rio.
Meu próximo encontro com Zé já seria nos anos 80.
Em 1987 fui trabalhar na agência de Mario Cohen, a Futura.
Perfeccionista que era, Mario fazia questão de só contratar os serviços dos melhores fornecedores e, entre as produtoras de som, a melhor delas era, sem dúvida, A Voz Do Brasil, do Zé e do Tico.
Na verdade, ainda não era A Voz, mas a Áudio Patrulha.
Poucas vezes na história da associação humana nós, os míseros mortais, tivemos a oportunidade de testemunhar a sociedade de duas criaturas tão geniais.
Tico era meu ídolo desde o Joelho de Porco, em sua formação original, de 1972, com Prospero Albanese na bateria e vocais.
Apesar de baixista, é de Tico a voz que se ouve nos refrões de “Mardito Fiapo de Manga”, registrada no primeiro e definitivo álbum da banda: São Paulo, 1554 / Hoje.
Embora fossem grandes músicos, Zé e Tico mais se assemelhavam a Stephen Fry e Hugh Laurie, do que a Lennon e Mccartney.
Sobrava-lhes talento.
Individual e coletivamente.
Afinal, quem se atreverá a dizer que Casa No Campo é harmônica e melodicamente, inferior a "Let It Be"?
Ou que Aeroporto de Congonhas e Trombadinhas são menos rocker do que "I Saw Her Standing There"?
O segredo do sucesso da dobradinha Zé e Tico não residia em sua imensa capacidade de produção musical marcada por uma singular e rica originalidade.
Mas no fato de que os dois eram completa e absolutamente engraçados.
E politicamente incorretos.
Muito incorretos.
Lembro de que numa reunião de briefing com o cliente Pirelli, num esforço para quebrar o gelo que se estabelece no início desses encontros, Tico disse ter lido que Fred Mercury se submetia, periodicamente, à lavagens estomacais para a retirada de semen que se acumulava no fundo de seu aparelho digestivo.
Como a biografia do front-man do Queen não revela qualidades contorcionistas no finado, supõe-se que o resultado final de uma ereção prolongada pertencesse a outrem.
Na seqüência, Zé deu o troco, afirmando saber que Rod Stewart costumava sorver falos alheios, mas que não se considerava perobo pela prática dessa oralidade.
Nessa linha anarco-sexual, Zé e Tico cometeram diversos atentados contra as recepções de incontáveis agências.
Por alguma razão que até hoje me escapa, a Norton era uma das vítimas prediletas.
Lá, enquanto aguardavam serem convocados pelo RTV, ou por quem de direito, introduziam sob as revistas dispostas na mesa, ali colocadas para a conveniência dos clientes e visitantes, exemplares de Honcho e outros títulos da pornografia gay, editados em inglês.
Parece que na velha Norton o idioma ingles era muito apreciado.
Os melhores profissionais do jingle de todos os tempos não se levavam a sério.
Tanto é assim que se apresentavam como o “Preto e o Judeu”.
Ligeiramente fascista, mas não a ponto de incomodar, o bom humor de Zé e Tico era indomável como suas personalidades.
Zé era agitadíssimo e Tico, mais bonachão.
Exatamente por ser boníssimo e generoso, Tico se permitia certos luxos, como o de gozar da miséria, como forma de expurgar nossos próprios preconceitos, permitindo que eles surgissem a nossa frente, crus e cruéis, fazendo-nos refletir sobre nossas maldades ocultas e impronunciáveis.
Duvido que esse episódio tenha acontecido de verdade, mas entre perder a piada e perder o mendigo, Tico preferiu assegurar o primeiro.
Disse que, certa vez, parado num “farol” (semáforo para os paulistanos), aguardando o sinal verde, aproxima-se de seu carro um garotinho que lhe pede uma esmola para poder comer.
Como eram 10 da manhã, Tico teria respondido assim:
Eu não vou te dar dinheiro porque depois você não almoça!
Pessoalmente, não creio nesse episódio, mas no lançamento de anões durante uma festa em sua casa, nisso aposto todas as minhas fichas.
Outra das façanhas contadas por Tico estava a de atormentar seu avô, simulando assediá-lo sexualmente.
Tico era louco e gênio da raça.
Além de agitado, Zé se irritava com a incompetência e a burrice.
Acho que foi em 89, ou 90.
Estávamos gravando a trilha e locução para uma campanha criada por mim e pelo Valdir (Bianchi).
O produto era Vodka Wyborowa.
Como o texto falado era tremendamente irônico e como se tratava de um destilado, decidimos trazer um conhecedor do assunto para fazer as falas: Paulo César Pereio.
O primeiro problema a irritar o Zé foi a falta de pontualidade do grande ator gaúcho.
O que deveria ser gravado na parte da manhã, começou logo depois da siesta mexicana, lá pelas três da tarde.
Tudo porque o Pereio não entra em avião e veio de ônibus do Rio.
Se o fuso horário já não fosse motivo mais do que suficiente para provocar urticária no Zé, ao que tudo indica, Pereio fez um test drive no objeto filmado e não falava coisa com coisa.
Mas o que deixou o Zé enlouquecido não foi nem a desatenção do astro de Eu Te Amo ao, involuntariamente, chutar e inutilizar um microfone da Voz.
O que tirou o Zé do sério foi o Pereio evadir-se da responsabilidade, referindo-se ao acidente com uma pergunta dirigida ao maestro Rodrix:
E aí, fresnel?
Até hoje não entendi o por quê da cólera do Zé e o significado de fresnel.
Zé tinha muitos filhos e uma linda mulher que, ao que parece, mais do que herdeiros, deu-lhe um norte magnético.
Contudo, nem todos os filhos proviam de uma mesma matriz.
Vez ou outra, apareciam em sua vida, desconhecidos que o chamavam de papai.
Tudo por obra de sua existência anterior.
Como astro pop que foi, Zé se encontrava sempre “na estrada”, excursionando por “esse mundão afora”, como dizia aquele velho comercial das Antenas Plasmatic.
Da última vez que topou com uma potencial Sandra Arantes do Nascimento, Zé disse que se tivesse que realizar o teste de DNA para provar paternidade, faria como Pelé e enviaria sangue de cachorro.
Tico morreu onze anos antes do velho companheiro.
Desfaleceu durante uma apresentação na Newcomm Bates, de Roberto Justus, na presença do próprio.
Perdeu a consciência e não acordou mais.
A dinastia Terpins respeita uma tradição que se repete geração a geração: cedo ou tarde, seus membros masculinos são fulminados por doenças cardíacas.
A despeito desse histórico médico familiar, Tico nunca se inibiu diante de um, ou dois pastéis recheados de carne moída, ovos cozidos e azeitonas verdes, que consumia diariamente, como assíduo freqüentador de uma pastelaria nas cercanias da produtora.
Para Tico, Volte Sempre, era um slogan quase que sagrado.
Num dia qualquer de 1998, os pastéis de carne, finalmente, vieram cobrar a fatura.
No entanto, uma outra versão afirma que Tico não suportou a possibilidade de ter que gravar uma fita demo de Justus que, já naquela época ameaçava o mundo civilizado com seu repertório de churrascaria rodízio.
Se houvessem permanecido na propaganda, Zé e Tico teriam perecido na desolação em que se transformou nossa profissão, onde efeitos especiais substituem a idéia criativa, onde os pré-testes eliminam a surpresa e a emoção e, principalmente, onde as trilhas em inglês, francês e até em japonês, tomaram lugar da música popular brasileira, num país que, ano passado, comemorou o cinqüentenário da bossa nova.
A última vez que vi o Zé foi na Livraria Cultura do Shopping Villa Lobos, durante o lançamento de um livro.
Eu estava lá por acaso e trocamos breves palavras.
A derradeira conversa que tive com Zé foi há muitos anos, antes de ele deixar a Voz e iniciar sua curta, porém, também muito bem sucedida carreira como escritor.
Nessa conversa, tão prazerosa quanto qualquer papo com o Zé, ele me confessara que desconfiava que jamais morreria.
Antes de rir dos outros, ou de si mesmo, Zé tirava sarro da morte.
Ele apenas esqueceu que sua transitoriedade havia sido decretada quando escreveu esses versos imortais:
....... que vai mantê-lo preso na baleia até o fim da vida,

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Paulo Coelho filma para o VW Voyage, em Praga, na mesma locação de filme de James Bond.

Está no ar o comercial do VW Voyage em que a marca é comparada, de forma humorada, ao escritor em alguns quesitos e só perde no de "obras publicadas".
O filme foi rodado em vários pontos de Praga. Termina na biblioteca do Monastério Strahov, considerada uma das cinco principais bibliotecas do mundo em beleza e conteúdo e que serviu de cenário, para o último filme de James Bond.
O filme da Almap foi criado por Renato Simões, Bruno Prosperi, Cesar Herszkowicz e Marco Monteiro. A produção é da Delicatessen com direção de Gustavo Leme.

video

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Claudio Torres lança filme com a "invisível" Luana Piovani e confessa que a publicidade também o ensinou a filmar louras.

Claudio, Luana e Selton no set - divulgação/Ralph Strelow










Com o compromisso de elevar a média de ocupação do cinema brasileiro em circuito com "A mulher invisível", que chega às telas no dia 5, Claudio Torres tem pela frente a tarefa de lotar salas de exibição com sua nova comédia, estrelada por Selton Mello e Luana Piovani. Pelas análises do mercado cinematográfico, seu quarto longa-metragem _ após "Traição" (1998), "Redentor" (2004) e "A mulher do meu amigo" (2008) _ tem fôlego para se tornar um blockbuster. Essa cobrança de resultado evoca a experiência pregressa de Torres com outro tipo de cinema: o publicitário. Na entrevista a seguir, o cineasta, filho de dois titãs do teatro nacional, Fernanda Montenegro e Fernando Torres (1929-2008), relembra sua trajetória pela publicidade e faz avaliação estética da arte de filmar comerciais.

Você é um diretor de histórias sobre descontroles emocionais e afetivos. É assim desde "Traição". Seus personagens perdem o juízo e viram lobo do homem em situações de pressão extrema. Na publicidade, você já levou essa reflexão, recorrente no cinema, para algum comercial? É possível ser autoral rodando propaganda?
CLAUDIO TORRES: Esteticamente, sim. Em termos narrativos também, mas a criação autoral, propriamente dita é feita pelo redator então, para que exista espaço para o diretor de publicidade ser autoral ele precisa ter uma interação muito boa com o criador, a agência e uma confiança muito grande do cliente.
Tive poucas experiências assim de participação na criação dos filmes, para citar alguns: na W/Brasil com o Washington (uma campanha de guaraná Antartica), na DM9 (um de cerveja Antarctica) com o Nizan e com o Silvio Matos (Guia da Vida Saudável do Globo).



video

video

video

video

Cheguei a fazer uns filmes estranhos. Tem um de armazenamento de dados pra Telefonica, que eu gostei muito.

video

De que maneira a publicidade serviu de balão de ensaio para o tipo de cinema que você faz hoje na Conspiração?
TORRES: A publicidade me ensinou a filmar. Colocar um filme no orçamento, trabalhar com equipe, conhecer o tamanho do plano que você precisa para a cena, montar, planejar uma cena de efeito, trabalhar com a música. Além de aprender a iluminar carros e louras.


video

O mercado espera muito de "A mulher invisível". Os mais de 15 mil pagantes* das prés compensaram essa expectativa. Como está a pressão em relação ao sucesso do teu novo longa-metragem, neste cenário pós-Divã e pós-"Se eu fosse você 2"?
TORRES: Acho que é mais torcida do que pressão. Seria bom se este fosse um ano de bastante público pro cinema brasileiro.

Que comerciais foram determinantes na tua formação como publicitário?
TORRES: Acho que a formação tem a ver com aqueles filmes que você viu quando estava começando, e isso no meu caso é ali entre 80 e 92, ou seja, há bastante tempo atrás. Que eu me lembre assim , os dois primeiros da Smirnoff internacionais. Um da Pepsi do Fernando Meirelles, um Rio Sul do Breno e aquele que o cara atravessa o deserto, chega no bar e pede um saco de batata frita - provoque sua sede até não poder mais e aí tomava alguma coisa que eu não lembro, era absurdo, sensacional.
*até 31/05/09

Pepsi - Roberto Carlos / dir: Fernando Meirelles
video

"Redentor" te apresentou como um diretor esteticamente ambicioso para o cinema nacional. Na publicidade brasileira hoje há um investimento estético forte? O que se inventa em termos de narrativa?
TORRES: O momento nunca esteve mais fecundo. A narrativa dos comerciais, os tempos cinematográficos, os enquadramentos mais abertos e a direção de arte estão cada vez mais elegantes e inteligentes. Explorando cada vez mais o nonsense, que sempre achei o ponto alto da narrativa publicitária. A pós produção deixou de ser um bicho de sete cabeças e hoje permite narrar qualquer ideia.

Relembre um episódio marcante do teu histórico na publicidade.
TORRES: Episódios marcantes são sempre os mais delirantes, coisas da juventude, em 98, eu e o Lula Buarque como diretores, Breno Silveira era o fotógrafo e Tony Vanzolini o diretor de arte. Juntos vimos pousar o helicóptero do exército tunisiano que nos levaria para filmar uma caravana cenográfica para um comercial de Antarctica no meio do Saara.