sexta-feira, 19 de junho de 2009

Meu filme inesquecível quase foi esquecido.

De volta, Toninho Lima fala de seu filme inesquecível.

Eu era estagiário. O que, na época em que entrei no negócio da publicidade, era pouco mais que uma ameba, menos que um zigoto. Se mandassem você comprar cigarros, você ia. Se o redator pedisse a você pra buscar o Aurélio no revisor, você ia. Se ele pedisse carona, mesmo que morasse no outro extremo da cidade, você dava. De modo que, no dia em que o diretor de criação me avisou que eu iria a uma filmagem, fiquei apoplético, siderado. Pela primeira vez, desde que eu pisei pela primeira vez na agência, fui considerado como ser vivente.
Filmagem? Onde? Era em Angra dos Reis. Um filme para os cigarros Havaí, um mata-rato da Philip Morris. Nós iríamos para Angra e dormiríamos lá para filmar bem cedo, no mar. Caraca! Ia ter até hotel pra mim? Nem dormi aquela noite de excitação e expectativa. A turma da faculdade não ia acreditar. Eu, participando de uma filmagem de comercial. Minha mãe nem entendeu muito bem a coisa: você vai aparecer na tv? Não, mãe, vou só acompanhar a filmagem.
O filme era, digamos, um tanto rústico. Eu achei meio bizarro, mas não cometi a deselegância de comentar isso.
Bem, o autor do roteiro era meu chefe (e viria a se tornar meu ídolo pouco depois). A ação se passava num barco, uma traineira de pescador, em que o nosso herói, um cara durão e boa pinta, era perseguido por bandidos, meio piratas, coisa assim. Os piratas atiram uma bomba no barco dele. Ele percebe a bomba e a pega na mão. Depois, tira um cigarro Havaí do maço e o acende no pavio da bomba. Joga a bomba de volta para o barco dos bandidos, que explode. A música do seriado dos anos 60, Hawai 50 acompanha toda a sequência. Tá-tá-tá-tá-táááá... Assinava
alguma coisa como “Havaí, para homens de ação.”
Dia seguinte, sol nascendo, estávamos embarcados numa velha traineira, nosso set de filmagem. Num outro barco, uma lancha meio velhusca, estavam os atores que faziam os bandidos. Esta lancha se aproximava cada vez mais da nossa traineira, onde um ator, de quepe de capitão, manobrava o timão, fazendo trejeitos de filme de ação.
A cena, um tanto complicada, porque precisava sincronizar a velocidade dos barcos e a ação dos atores envolvidos, foi rodada algumas vezes até dar certo. O diretor era o Carlos Alberto Vizeu, um cara muito bacana, mas dono de um mau-humor engraçadíssimo. Em vez de vociferar, ele meio que choramingava. Quando ele considerou que a ação estava bem ensaiada, choramingou mais um pouco, reclamou da demora da claquete e pronto: fomos para a cena da explosão da bomba.
Eu estava louco para ver aquilo. O barco dos bandidos emparelhava com a traineira e eles atiravam a bomba. O nosso audaz capitão pegava a bomba, acendia o cigarro Havaí e a devolvia, explodindo o outro barco.
Como ficou a cena? Bem, eu só vi na televisão. Veiculou muito naqueles bons e saudosos anos 70.
Na hora da cena pra valer eu desci para uma espécie de porão da traineira, atrás de um banheiro. Estava apertado para fazer xixi. Ouvi um estampido quando estava na escadinha, voltando ao convés.
Não vi como foi rodada a tal cena. Até hoje nunca mais tive a oportunidade de acompanhar a filmagem de um comercial com um barco explodindo. Menos ainda com um herói que acende o cigarro numa banana de dinamite com o pavio aceso.
Vai ver é por isso que eu quase ia esquecendo desse filme.

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