domingo, 21 de junho de 2009

Michel Gondry - o brilho eterno de uma mente que lembra de muita coisa.

Está agendado para amanhã (22/06) um encontro da imprensa carioca com Michel Gondry, diretor de "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" (2004) e de uma penca de comerciais e videoclipes memoráveis. Mas, o CINEMA CURTO saiu na frente e entrevistou o diretor de véspera, por telefone. Atualmente envolvido com a produção da aventura "The Green Hornet", baseada no super-herói Besouro Verde, o diretor francês de 46 anos vem ao Brasil para promover a exposição "Rebobine, por favor", em cartaz no CCBB do Rio até 9 de agosto. Neste bate-papo, Gondry apresenta suas observações sobre o requinte estético que a publicidade pode ter quando feita com alguma liberdade autoral.

Sua obra é definida como uma reação do cinema de invenção na grande indústria. Na sua publicidade, há espaço para a autoralidade?
MICHEL GONDRY: Minha publicidade sempre obedeceu os interesses das agências que me contratavam. No entanto, elas me contratavam esperando um tipo de filme que não fosse convencional. Esperavam alguma experimentação. E eu tentei imprimir liberdade nos filmes que dirigi. Fui sempre muito criterioso na seleção dos comerciais que dirigi. Até hoje, nunca aceito rodar mais do que dois comerciais por ano.

Por quê?
GONDRY: Faço isso como forma de macular meus hábitos de direção e meu olhar com os vícios da propaganda. Não ponho emoção naquilo que dirijo para a publicidade, pois sei que, por mais liberdade que eu tenha, fica em primeiro lugar o compromisso de criar uma boa peça de venda.



"Brilho eterno de uma mente sem lembranças" é definido por alguns críticos como "O" filme desta década. Que conquistas este filme lhe trouxe, além do Oscar de melhor roteiro conquistado em 2005?
GONDRY: O problema de um acerto no cinema é que as pessoas ficam esperando algo melhor, ou pelo menos parecido, quando você faz outro filme. Como eu queria fazer um outro filme que fizesse as pessoas esquecerem "Brilho eterno...". Não saberia dizer se a memória é o eixo central dos meus filmes. Sou um nostálgico. E não vejo isso como uma constatação positiva. Nostalgia é um sentimento agridoce que nos projeta à infância. É da infância que vem a minha primeira memória cinematográfica, o filme "A viagem de balão" (1960), de Albert Lamorisse, que vi aos 7 ou 8 anos.

O comercial da Lacuna Inc. com Tom Wilkinson.


Foi a partir de seus vídeos musicais, em especial "Human behavior", que o senhor foi projetado mundialmente no mercado audiovisual, selando uma longa e calorosa parceria criativa sua com cantora islandesa Björk. Qual é a importância dela para sua carreira?
GONDRY: Björk enxergou detalhes da minha alma que eu desconhecia e deixou que eu crescesse com seu sucesso. Qualquer mérito dos clipes que dirigi deve ser dividido com ela, que colaborou para as escolhas estéticas que fiz.

"Human behavior" - Björk


Seu cinema virou tema de um livro nacional: "Ciência do sonho - A imaginação sem fim do diretor Michel Gondry", de Marcelo Rezende, publicado pela editora Alameda em 2008. Como define sua relação com o nosso cinema ?
GONDRY: Há alguns anos, eu vi um filme brasileiro fascinante, em preto e branco, sobre um rapaz que abre mão de sua satisfação amorosa para crescer na classe média. Como era mesmo? Ah! "São Paulo S. A." (de Luís Sérgio Person, lançado em 1964). São Paulo, onde estive algumas vezes, é um lugar incrível, uma metrópole onde a publicidade, em que eu também trabalho, acontece. Minha curiosidade com o Rio é a sensação de que aí vou encontrar pessoas mais interessadas em falar de sentimentos. Adorei um filme de vocês em que uma senhora espia a vizinhança a partir de uma janela, ajudando a polícia a desvendar um crime: "O outro lado da rua" (com Fernanda Montenegro). Em São Paulo, vi coisas boas como um documentário sobre Tom Zé. Vamos ver o que verei aí.

Seth Rogen será o Besouro Verde. O que você promete para esta transposição do herói imortalizado na TV por Van Williams? Será uma comédia?
GONDRY: É impossível ver Seth Rogen em um filme sem associá-lo a humor. Mas quero um caminho diferente para "The Green Hornet", quebrando o padrão da comédia. Quero que a aventura do Besouro Verde seja um filme cheio de ação.

Como foi sua experiência com Jim Carrey nos sets?
GONDRY: Durante as primeiras filmagens de "Brilho eterno...", eu percebia que Carrey mudava quando desligávamos a câmera, estampando uma virilidade que sua persona recorrente nas comédias não tem. Foi aquela outra figura que eu busquei. Alguém que não reagisse à câmera, e sim à sua colega Kate Winslet, às pessoas. Estávamos contando uma história sobre perdas. Histórias sobre perdas e conquistas devem sempre ser contadas levando em consideração o fato de que esses dois verbos, "perder" e "conquistar" envolvem o outro.

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