quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Marcos Jorge: filme lindo e perfeitinho é minoria.



Consagrado como diretor de prestígio com o
premiadíssimo "Estômago", o paranaense Marcos Jorge, que fez carreira em publicidade no Brasil e na Itália, sobe a Serra Gaúcha nesta sexta-feira para apresentar seu novo longa-metragem; "Corpos celestes". O filme foi dirigido por ele em parceria com o diretor Fernando Severo, realizador dos curtas-metragens "Visionários" e "Paisagem de meninos". A trama aborda as inquietações amorosas e existenciais de um astrônomo, Francisco, interpretado por Dalton Vigh. Na entrevista a seguir, Jorge explica a gênese do projeto e faz um retrospecto de sua trajetória na direção de comerciais.

Qual é a tua expectativa para Gramado com "Corpos Celestes" após a consagração de "Estômago" em festivais das mais diferentes latitudes do Brasil e do mundo?

Marcos Jorge: Tenho grande curiosidade em saber como as pessoas verão o "Corpos Celestes" depois da relativa notoriedade que alcancei com o Estômago. Não vai ser fácil comparar os filmes, que são bastante diferentes entre si, e ainda mais difícil vai ficar a tarefa dos críticos e jornalistas que procurarem no Celestes uma continuidade em relação ao Estômago. Antes de mais nada, "Corpos Celestes" é o meu "primeiro" longa-metragem, pois o filmei antes do Estômago (embora o esteja lançando depois). Além disso, divido a direção com outro cineasta, o que obviamente condiciona o filme a não ter somente o meu ponto de vista sobre a história.
Quanto à expectativa em relação ao lançamento no Festival, devo dizer que chego a Gramado com a mesma expectativa com que cheguei no Rio com o Estômago: com a expectativa de que o filme seja entendido e que encontre seu público.

Como "Corpos celestes" se enquadra no teu currículo de realizações?
Jorge: Como expliquei, filmei o Corpos Celestes antes do Estômago, na realidade alguns meses antes. No início de 2005 minha produtora, a Zencrane Filmes, venceu dois editais de produção de filmes de baixo-orçamento, um com o projeto do "Corpos Celestes" e outro com o projeto do "Estômago". O Celestes foi filmado antes, em fins de 2005 e início de 2006. Estômago foi filmado em seguida, uns dez meses depois, praticamente com a mesma estrutura do Celestes, mas por uma série de razões acabou sendo lançado antes.

Existem concepções estéticas autorais possíveis no cinema publicitário do Brasil e da Itália?
Jorge: O conceito de autor é muito diferente no cinema publicitário e no cinema "propriamente dito". Quando comento meus filmes, gosto de dizer que os que gostam deles devem cumprimentar a todos os envolvidos (atores, diretores de departamento, artistas e técnicos em geral) pois o mérito é compartilhado, mas os que não gostam devem reclamar somente de mim. Ao assinar como diretor um filme, tomo para mim a responsabilidade de dar a palavra final sobre tudo, coisa que não acontece no cinema publicitário. O filme publicitário, antes de mais nada, tem uma finalidade específica, e na imensa maioria das vezes tem seu roteiro criado por uma agência. É claro que interfiro no roteiro e dou minha leitura em relação à sua materialização, e às vezes até discuto com os demais profissionais envolvidos, mas a última palavra, o "final cut", é da agência e do cliente, que em última análise são os "donos" do projeto. Assim, a autoria do filme acaba compartilhada não só no que tem de positivo, mas em tudo. Mesmo assim, é possível, para um diretor publicitário, deixar sua "marca estilística" nos trabalhos que faz. No Brasil, isso é
um pouquinho mais fácil do que na Itália pois aqui os diretores montam seus filmes, ou seja, entregam para a agência o produto montado, enquanto que na Itália, na maioria das vezes, é a agência que dá o corte final do projeto.

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De que maneira um exercício mais autoral como "Estômago" te rende subsídios estéticos para filmar comerciais?
Jorge: Filmar longa-metragens de ficção me fez, sem dúvida nenhuma, um diretor muito mais maduro do que antes de fazê-los, quando tinha feito somente comerciais, curta-metragens e documentários. Então, antes de mais nada, hoje enfrento a filmagem de comerciais com uma habilidade narrativa e na direção de atores que antes eu não tinha, e isto me deixa mais seguro. Além disso, sempre levei as experiências de um gênero para outro, e quando fazia filmes experimentais (na década de 90 ganhei vários prêmios deste gênero), por exemplo, neles eu testava técnicas e ideias que acabava usando no trabalho comercial. O mais interessante é que o contrário também é verdade: às vezes, experimento uma técnica no comercial que depois acabo usando na ficção. Um exemplo foi o modo como me defini pelo ator-mirim Rodrigo Cornelsen para viver o Chiquinho de "Corpos Celestes". Eu gostara bastante do Rodrigo, mas ele não tinha nenhuma experiência anterior. No momento em que eu deveria escolher o ator, surgiu um comercial em que deveria usar um menino da idade dele: não tive dúvida, coloquei-o no comercial e ele saiu-se esplendidamente, o que me fez ter certeza de que ele daria conta do personagem no filme.

Como a Itália, onde você estudou, lida com essa pecha de "cinema publicitário" dado a filmes de diretores que flertam com as duas áreas da produção audiovisual: a produção de comerciais e a produção de filmes narrativos de ficção ou documentário para salas de exibição?
Jorge: Na Itália eu quase poderia dizer que esta "pecha" não existe. Nos dez anos em que vivi lá nunca li uma crítica que fizesse menção ao fato do diretor de um filme ser também diretor de comerciais (muito embora isso seja extremamente comum). Mas devo dizer que também aqui no Brasil este assunto me parece bastante fora de moda, e na minha opinião sobretudo por uma razão: hoje, não existe mais um "estilo" publicitário definido. Basta dar uma olhada rápida pelos comerciais hoje veiculados para perceber que aquele filme lindo, perfeitinho, de luz platinada, onde todas as pessoas são perfeitas, constituem a "minoria" dos materiais. Hoje, inclusive, vivemos a moda da fotografia desaturada, quase sem cor. A publicidade se apropria constantemente da linguagem dos filmes de ficção e documentais, e a recíproca também é verdadeira, os filmes se apropriam sem medo da linguagem rápida e cortante dos comerciais. Além disso, uma grande parcela dos cineastas relevantes também dirige comerciais. Mas,
como é fácil e cômodo utilizar a "pecha" de "estética publicitária" para criticar o trabalho de um diretor, algumas pessoas ainda se utilizam deste recurso, quase sempre sem detalhar onde a tal "estética publicitária" esteja.

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Existe uma publicidade forte no Sul do Brasil? Como é a publicidade paranaense?
Jorge: Curitiba e Porto Alegre são cidades extremamente ativas na produção publicitária. Várias agências gaúchas e parananeses detém contas nacionais importantes, e o mercado local também é muito ativo, criando e produzindo incessantemente. A Master Comunicação, por exemplo, agência curitibana com sedes em São Paulo, Rio e Brasília, é uma das mais criativas agências do país, e seus prêmios demonstram isso.

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3 comentários:

  1. Olá,

    muito legal o seu Blog...gostaria de convidá-lo a visitar o nosso ...minervapop@blogspot.com...

    Valeu!

    Anselmo - SP

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  2. Valeu Paulo, a matéria da Dusty é do Brother Sandro....vamos trocar links sim....acho uma boa idéia!

    Anselmo - Minerva Pop

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