segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Maritza Caneca: filmando comerciais com olhar feminino.

Maritza e Nelson no set de "A luz do Tom"

Terra de machos, a fotografia publicitária se abriu para a delicadeza de Maritza Caneca. Assistente de alguns dos maiores diretores de fotografia do país, como Affonso Beato, Pedro Farkas, Walter Carvalho, Lauro Escorel e José Tadeu Ribeiro, Maritza já clicou dezenas de comerciais, além de ter fotografado curtas-metragens e ter trabalhado em longas de realizadores consagrados como Nelson Pereira dos Santos e Walter Lima Jr. Na entrevista a seguir, ela conta para o CINEMA CURTO como deixou o preconceito em segundo plano, apontando seu foco para a invenção.

Visualmente, até que ponto a ousadia é permitida na publicidade brasileira? Em que comerciais você ousou?
Acho que a ousadia da publicidade está relacionada à sofisticação do nosso olhar, às novas tecnologias onde podemos testar novas câmeras e procurar novos looks.
Acho que o filme do ZTE que fiz para Portugal tem essa estética do look internacional, cada filme tem o seu perfil. Acabei de fazer um clip no Morro da Providência da banda DUGUETTO – “Questão de que" no qual pude, com a estética da publicidade e a sensibilidade do olhar, sofisticar o visual do clip.

A tua experiência em cinema, que inclui colaborações com mestres como Walter Lima Jr., é marcada por passagens por produções internacionais como "Luar sobre Parador" e "O incrível Hulk". Como você avalia o interesse estrangeiro em investir em equipes brasileiras? Como foi a sua experiência com Louis Leterrier no filme do Golias verde?
Concordo quando você diz que o Walter Lima é um mestre, quando assistente sempre tive muita vontade de filmar com ele , mas não aconteceu! Quando o Pedro Farkas me indicou para fazer a segunda unidade de "Desafinados" fiquei muito feliz e honrada, foi uma experiência muito boa conviver com ele e escutar suas historias.
Já no "Luar sobre o Parador" eu fazia video assist (foi bem no começo da minha carreira), eram 5 câmeras Panavision , muitos equipamentos novos , uma equipe enorme, uma super produção, foi genial fazer parte desse filme , tive a oportunidade de filmar com Raul Julia, Richard Dreysfuss, Sonia Braga, Fernando Rey (esse atuou em todos os filmes de Buñuel e eu fiquei bem próxima dele). O DP foi Donald Mc Alpine, uma pessoa muito generosa que mantinha sua equipe sempre integrada. Com ele aprendi a trabalhar com o laboratório, acompanhando diariamente a revelação do negativo. Quanto ao "Incrível Hulk", o meu trabalho foi de operadora de câmera, com uma bagagem cinematográfica maior estava mais próxima da direção, sugerindo planos e enquadramentos.

Como é a sua experiência em comerciais de realizadores/produtores estrangeiros?
Fiz muitos comerciais estrangeiros tanto operando câmera como fotografando. É sempre muito bom, pois fazemos novos parceiros, trocamos experiências e geramos novos trabalhos podendo até sobressair no mercado internacional.

Com a Retomada, hoje a gente vê um maior número de mulheres atuando em áreas técnicas do cinema e da publicidade, em especial na montagem e na direção de arte. O que o olhar feminino tem agregado à estética publicitária?
Tento sempre buscar referencias cinematográficas, procuro sempre estudar um pouco, pesquisar, aguçar o olhar. Tenho fome de imagem, de quadros, pintura, assim vou descobrindo e formando o meu olhar feminino.

O machismo atrapalha a vida de uma fotógrafa de cinema e publicidade? Como foi a sua experiência?
Acho uma bela conquista das mulheres nessa profissão, quando comecei fazer assistência de câmera não havia mulheres fotógrafas, pelo menos no Brasil. Era um “trabalho para homens”. Escutei muito "não chama não, ela não vai agüentar..." Acho que temos um olhar diferente, talvez mais cuidadoso, delicado, um olhar feminino!

Como você avalia esteticamente a sua produção de stills? O que a sua câmera quer flagrar?
Eu tenho muito desse olhar, pois comecei no cinema fazendo o still do filme "Cinema Falado” de Caetano Veloso. Sempre fui muito ligada à fotografia, enquadramento, quando comecei não sabia da existência de um diretor de fotografia... fui indo !!! Como still você fica muito tempo parado no set esperando as coisas acontecerem, me interessei logo pela câmera, migrei!
Comecei fazendo segunda assistência de câmera, depois primeira, numa época que só havia duas mulheres fazendo. Fiquei muito tempo, pois sentia a necessidade de mostrar que eu era muito boa no que fazia.
Fiz muitos filmes... muitos comerciais, clips e documentários. Trabalhei com muitos fotógrafos consagrados, vi muitas coisas... Quando comecei a fotografar a base estava com um belo alicerce. Eu já sabia, estava no meu sangue... sou completamente apaixonada pelo que faço, digo que é minha droga, minha cachaça!
Hoje em dia ando com a minha câmera a tiracolo, pois sempre estamos no lugar certo, na hora certa com a luz certa. Tiro perfeito! Uso também a fotografia como um estudo do enquadramento x luz, sempre procurando diferentes ângulos.

Em relação à sua experiência com Nelson Pereira dos Santos, que olhares sobre o cinema um profissional herda ao trabalhar em um set com o diretor de "Rio 40 graus"?
Ter a chance de fotografar para o Nelson Pereira do Santos foi maravilhoso, um belo presente! Com a convivência acabamos ficando amigos, rolou uma bela química nessa mais nova parceria! Ainda mais um filme sobre o maestro soberano Tom Jobim, acho que agora estou bem apadrinhada e esperando novos projetos ...

Aqui você conhece o trabalho de Maritza.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Tony Scott - "Eu pinto com a câmera"



Tony Scott no set de "Sequestro do Metrô 1 2 3 "
Carinhoso ao falar de sua relação com a publicidade, Tony Scott tem comemorado seus 40 anos de cinema promovendo o lançamento internacional de “O sequestro do metrô” (“The taking of Pelham 1 2 3”), que estreia nesta sexta-feira. Irmão mais novo de Ridley Scott, diretor de “Blade runner – O caçador de andróides”, Scott tem alternado sua agenda entre projetos para Hollywood e para o mercado publicitário. Em entrevista exclusiva para Rodrigo Fonseca do CINEMA CURTO, o diretor revela manhas sobre como se dirige um comercial.

O que um diretor de superproduções aprende rodando comerciais?
TONY SCOTT: A publicidade é uma maneira de afiar o meu olhar, sobretudo quando se filma pensando em imprimir estilo pessoal aos filmes. Por isso ainda rodo comerciais e projetos para a TV.

Em 40 anos como o cineasta, o senhor alternou blockbusters como “Top Gun” e cults como “Amor à queima roupa” e “Fome de viver”. O que mudou no cinema desde seu primeiro filme, “Loving memory”?
SCOTT: Se existe algo de diferente, é a certeza da diferença formal entre filmar para o cinema e filmar publicidade. Dirigir um comercial é uma corrida morro acima: é preciso velocidade. Dirigir cinema é escalar uma montanha: é necessário paciência. Comecei a filmar após estudar Belas Artes, raciocinando com a lógica das artes plásticas. Essa lógica de contemplação se aplica bem a um longa-metragem, mas nem sempre atende àquilo que a publicidade exige.

O tipo de cinema em que o senhor e seu irmão, o diretor Ridley Scott, militam divide os críticos, que apontam um flerte declarado de seus filmes com a linguagem dos clipes e da publicidade. É dessas fontes que vêm as referências visuais de sua obra?
SCOTT: Em 1969, quando dirigi meu primeiro filme, o média-metragem “Loving memory”, eu havia acabado de sair da Escola de Belas Artes, onde estudava pintura. Quando comecei a filmar, eu tentei problematizar a mesma questão que me dragava quando eu era pintor: captar o movimento. No cinema e na publicidade, eu caço o movimento. No passado, eu era um artista plástico que filmava nas horas vagas. Hoje, eu pinto com a câmera, pincelando a realidade.

A realidade pincelada por “O sequestro do metrô” é a da crise financeira internacional contemporânea? Afinal, o terrorista vivido por Travolta foi um investidor de Wall Street. Seu filme é uma alegoria do colapso financeiro mundial?
SCOTT: É engraçado essa questão da crise porque parece que a antecipamos. O filme foi rodado bem antes de a crise começar, partindo do texto original, que vem do romance homônimo de John Godey, popularizado nos anos 1970. Quando aceitei filmar “O sequestro do metro”, deixei claro que só rodaria o longa se pudesse rodar do meu modo, sem alusões ao filme de 1974, que tinha mais humor na figura de Walter Matthau. O meu “sequestro” é uma história de vingança. Fizemos uma pesquisa sobre a realidade do metrô nova-iorquino que nos serviu base e eu busquei uma olhar para aquele mundo em que pudesse me reinventar em relação aos meus longas anteriores. Não é um filme de ação clássico. É um veículo para um estilo mais pessoal. No cinema, na direção, imprimir estilo é o apoio que um cineasta pode dar a seu elenco.

Nos últimos cinco anos, seu estilo tem sido comparado a “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles. O senhor se incomoda com a comparação?
SCOTT: Foi “Cidade de Deus” que inspirou o filme que rodei no México: “Chamas da vingança”, cuja câmera foi o fotógrafo de Meirelles, César Charlone. Eu vi “Cidade de Deus” várias vezes e fiquei impressionado com o trabalho de Charlone. Por isso decidi que deveria trabalhar com ele. Além de Charlone, trabalhei mais de uma vez com um dos atores de “Cidade...”: Charles Paraventi.

Em seus comerciais, o senhor se acostumou a empregar astros do primeiro escalão de Hollywood. Já no cinema, o senhor tem estado fiel à Denzel Washington.Por quê?
SCOTT: Denzel é um sujeito que expressa muito com poucos gestos. Quando tenho ele ao meu lado em um filme, fica mais fácil para mim me concentrar nos exteriores. O olhar de Denzel dá conta do que é interiorizado, do que não é dito.