quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Antônio Torres e o épico publicitário de Tizuka Yamazaki.









Desde o lançamento de “Cidade de Deus” que leio em algum lugar que o cinema brasileiro ficou “publicitário”, a partir da entrada em cena de Fernando Meirelles, que teria na publicidade a sua marca de origem. O curioso é que não disseram isso antes a propósito (por exemplo) de Ugo Giorgetti, quando ele passou da direção de comerciais para a de longas-metragens. Olhando para trás, e sem rancor, para lembrar a peça de John Osborne (Look back in angry) que virou filme, recordo um brilhante redator publicitário, chamado Neil Ferreira, a mandar um petardo sobre o seu próprio meio: “Na publicidade nada se cria, tudo se copia”. Queria ele dizer com isso que os acontecimentos vinham antes, fossem nas artes em geral, na moda, na política etc., de que a publicidade se tornava caudatária.

Como, então, pode ter acontecido o contrário, e logo em relação ao cinema, fonte de inspiração dos publicitários, sempre de canudinho à boca diante das telas? Fui do ramo, mas nem por isso consegui enxergar a tal influência publicitária nos filmes de Fernando Meirelles. Ele domina o seu ofício e pronto. E de cara conseguiu imprimir a sua marca autoral.

É possível perceber essa marca em um comercial de 15 ou 30 segundos ou de, no máximo, um minuto? Recordo um caso assim, que certamente não terá sido (nem será) o único. Foi um que criei uma vez para uma marca de tubos e conexões, quando trabalhava na Giovanni. O roteiro tinha três linhas: de um lado vinha um cavaleiro, metido em armaduras, e de espada em punho. Ao avistar outro que marchava na sua direção, apressava o passo cada vez mais, o mesmo acontecendo com o que vinha em sentido contrário. Ao passar um pelo outro, cruzavam armas: violentas porretadas com os tais tubos que patrocinavam a batalha, para demonstrar a sua resistência.

Adilson Xavier, o diretor de criação da agência, achou que aquele roteiro pedia uma direção de longa-metragem. E sugeriu a Tizuka Yamazaki para realizá-la. O que ela veio a fazer, com muita competência, num dia inteiro de filmagens em torno de uma pedreira do Exército, em Marechal Hermes, subúrbio do Rio. A produção mobilizou tanta gente que parecia mesmo uma operação de guerra. Para começar, Tizuka pôs um cavaleiro em cima de uma montanha, de onde ele iria mirar um vale até avistar o seu algoz, numa cena que lembrava um dos épicos de John Ford. Era a primeira vez que a Tizuka dirigia um comercial e isso virou notícia. O anunciante adorou o resultado. O autor do roteiro também, claro.

Mas do cinema quem fez mesmo escola na publicidade foi o lendário Carlos Manga. Esse até merecia uma retrospectiva do melhor que produziu no gênero.

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