sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Breno Silveira - do microscópio à Arriflex.

Compromissado com uma campanha para o Mastercard, que vai mantê-lo ocupado até o fim do ano, Breno Silveira, diretor do maior fenômeno popular do cinema brasileiro na Retomada, "2 filhos de Francisco" (2005), um dia viveu com a cabeça no mar. Rola água em alguns dos comerciais que dirigiu em uma bem-sucedida trajetória, mas não tanto quanto na época em que foi estudante de Biologia Marinha. Foi bem antes de um comercial para o jornal "O Dia", produzido pela Made for TV no início da década de 1990, que fez dele e de seu colega Andrucha Waddington duas sensações da publicidade nacional, quando desistiu de dissecar robalos e lulas e decidiu que queria fotografar.


O primeiro comercial fotografado por Breno em 93.


E o primeiro clip em co-direção com Luiz Stein.

Muitas vezes, ele clicou por aí com máquinas mais complexas que a Nikon F2 dada a ele pelo pai,o culpado por seu interesse em imortalizar instantes com suas lentes. Interesse este que emprestou viço à cinebiografia da dupla Zezé Di Camargo e Luciano, vista por 5,3 milhões de espectadores (números que só o recente "Se eu fosse você 2" conseguiu bater).
- Fotografo desde os 14 anos, quando ganhei a Nikon que até hoje tenho. Meu pai, um arquiteto, improvisou um pequeno laboratório em casa, onde eu revelava os filmes. Um dia, um amigo dele, o Edgar Moura (diretor de fotografia de sucessos de público como "Lua de Cristal", e de crítica, como "A queda") me chamou para fotografar para o cinema, no filme "Bete Balanço". Foi aí que comecei, aos 19 anos - relembra o diretor, que nunca obteve o diploma de biólogo. - Depois de estar no set, eu me cansei de ficar vendo perna de barata e tatuís no microscópio. Percebi que ciência até deve ser um lance interessantíssimo, mas não para mim.
Hoje um dos sócios da Conspiração Filmes, Silveira surgiu no planisfério publicitário quando a produtora já buscava seu espaço. Ao refletir sobre o passado, o diretor, que partiu dos sets para os comerciais, reconhece a importância do "cinema curto", dos reclames, em sua formação.
- Filmando, todas as linguagens se ajudam. Eu já fiz publicidade pensando no filme X e já fotografei ou dirigi longas pensando em um comercial Y. O cinema brasileiro durante muito tempo viveu assombrado por um problema de falta de dinheiro. Quando ele começou a se sofisticar, buscando produções mais elaboradas, começaram a dizer que estávamos fazendo publicidade - diz Silveira, que dirigiu com Katia Lund o videoclipe "Minha alma (A paz que eu não quero)", do Rappa, um dos mais influentes da música pop dos últimos anos.



O preconceito de uma parcela considerável da crítica pela elegância visual que Silveira tentou imprimir a alguns dos longas de que participou já lhe causou muita enxaqueca.
- Fui criticado pela fotografia de "Eu, tu, eles", do Andrucha, por não ter deixado aquela imagem árida. Aquele filme não era um embate com o meio, era uma história de amor. E histórias de amor precisam ser bonitas - diz o diretor que, em 2008, lançou "Era uma vez...", visto por meio milhão de pagantes.
- A publicidade me deu as armas para filmar. Foi com ela que eu aprendi a dirigir. Na França, no período em que estudei por lá, eu aprendi a amar o Brasil.
Levo esse amor para os filmes que faço - diz Silveira. - No cinema brasileiro, às vezes, um diretor pode passar até quatro anos sem ter contato com sua equipe, esperando recursos para fazer seu novo filme. Com a publicidade, não. Ela me dá a chance de operar com qualquer orçamento.
Breno está envolvido com o projeto "Sentado à beira do caminho", uma ficção inspirada no universo das canções de Roberto Carlos. Mas antes de mergulhar no repertório de Roberto, Silveira tem mais um longa à vista. Batizado provisoriamente de "Explode coração", sua nova aventura cinematográfica é uma ficção baseada na vida de outra majestade da MPB, no caso, o Rei do Baião Luiz Gonzaga (1912-1989) e sua relação com seu filho, Gonzaguinha (1945-1991).
- Eu ouvi uma fita cassete em que Gonzaguinha se grava dizendo: "Não conheci o meu pai. Não o suficiente. (...) Eu não perdoei o meu pai. E amanhã é o enterro dele". Essas palavras me emocionaram. De novo, eu descobri uma história sobre pai e filho. Esse projeto envolve uma pesquisa grande, que começa no livro de Regina Echeverría ("Gonzaguinha e Gonzagão - Uma história brasileira"), mas vai além - diz Silveira. - Gonzaga, no Nordeste, é um mito com o tamanho de Padre Cícero ou de Antônio Conselheiro.

Aqui você relembra alguns comerciais do Breno.










A Noite do Tungstênio – Toninho Lima

Depois do Torres, outro Antonio criativo: Toninho Lima da NBS.


Eram os anos noventa em seus últimos suspiros, lá por 1998, se não me engano. Sei que era setembro porque minha filha mais velha fazia aniversário e eu liguei de lá, entre emocionado pela data e pela experiência inédita que estava tendo no sertão do Seridó, no coração do Rio Grande do Norte.
O cliente era o Sebrae, que até então eu confundia com uma autarquia do governo federal, sei lá porque cargas d’água. Acho que soava oficial, sabe como é? E a sede fica em Brasília, poxa.
Era um filme de um minuto, publicidade, que tratava de um projeto do Sebrae chamado PRODER. Não confundir com o PROER, da mesma época.
O PRODER chegava numa comunidade pobre, se reunia com representantes da prefeitura e da sociedade, estudava a economia local, descobria vocações e ajudava aquela cidade a encontrar o rumo do desenvolvimento auto-sustentável. Eu escrevia os anúncios e criava os roteiros contando isso com a mesma indiferença com a qual falava dos benefícios das pastilhas listradas do novo Raid Elétrico. Não acreditava numa sílaba de cada palavra que anotava mecanicamente. Balelas. Como sempre.
As reuniões, em Brasília, eram tediosas. Sempre havia um diretor que não podia vir e um assessor que o substituía e fazia as mesmas perguntas que eu já tinha respondido em outras reuniões anteriores.
Tinha um diretor, com quem eu tratava mais diretamente, que tinha uma boa visão da coisa toda. E parecia gostar mesmo do projeto. Falava dele com uma certa carga emocional, eu diria. Chamava-se Evandro. Foi ele quem sugeriu que eu fosse acompanhar a filmagem, no sertão do Rio Grande do Norte.
De início, eu recuei. Iria perder muitos dias de trabalho. Mas quando eu soube do esquema montado para aquela produção, fiquei tentado. A produtora considerou aquele projeto como um projeto de longa-metragem. Era, até pela linguagem do roteiro que eu tinha criado, um documentário em um minuto. E assim foi encarado pelo diretor, Juarez Precioso, que eu conhecia bem e com quem sempre gostei de trabalhar.
A trilha, por exigência minha, era composta especialmente, num estilo bem nacionalista, quase patriótico. Para inspirar o maestro Felipe Radicetti, levei umas gravações da trilha do Bem Amado, na TV Globo dos anos 70. Ele pegou o espírito da coisa e a música do filme ficou de arrepiar.
E a fotografia seria poderosa, épica. O que obtivemos na figura do diretor de fotografia Nonato Estrela, vindo de longas, e dono de um dos maiores e mais inesgotáveis repertórios de piadas do mundo publicitário e cinematográfico.
Partimos, então, para a nossa grande aventura no coração do nordeste. Íamos para uma comunidade chamada Gargalheiras, em torno de um enorme açude artificial, criado para a pesca de subsistência. Para chegar lá, precisávamos sair de Natal, de van e pernoitar em Currais Novos, uma cidade típica do interior nordestino, com um hotel e uma igreja. O hotel se chamava Tungstênio, o que só não causou mais estranheza do que o nome da própria cidade.

Hotel Tungstênio
Eu disse ali acima que era setembro, não foi? E era mesmo. Mas, sei lá porquê, demos de cara com o carnaval. A cidade fervilhava, um trio elétrico arrastava multidões pela praça principal. A população inteira da cidade estava na rua. Ninguém, a não ser o forasteiro aqui, pensou em se recolher e dormir. Mas eu tinha que acordar às 5 da matina para seguirmos viagem. O produtor era duro com horários. E eu, apesar de ser da agência, fazia parte da equipe. Assim como o Paulo Netto, nosso rtvc na época, que dividiria comigo o quarto do Tungstênio. Eu avisei: Paulinho, vou indo pro hotel. Você vem?
Não ouvi muito bem a resposta, porque a cabeça dele aparecia vez por outra por sobre a multidão e desaparecia imediatamente. Desisti e fui sozinho para o hotel.
O Hotel Tungstênio ficava do outro lado da praça, o que me irritou porque o som do trio elétrico podia ser ouvido de lá e era bem alto. Mas nada que um travesseiro sobre a cabeça não resolvesse. Eram quase duas da manhã eu precisava de uma ou duas horas de sono, pelo menos. Pensei nas coisas que já tinha visto até agora e no que iria poder contar quando voltasse ao Rio. E depois pensei na minha casa, na minha mulher e depois, depois... caí no sono.
Eu disse que precisava dormir umas duas horas? Foram exatos 10 minutos. Acordei com a cama pulando. Literalmente, pulava e me sacudia. Um som ensurdecedor gritava nos meus tímpanos (e olha que eu estava com o travesseiro sobre os ouvidos): - Carrinho de mão, ê, ê, carrinho de mão, ê, ê!
Eu ainda nem tinha me refeito do susto quando ouvi socos na janela do quarto. Abri para ver o que era. O trio estava parado em frente à minha janela do hotel. E o teto, onde a banda tocava, ficava na altura do meu parapeito. O trio elétrico tinha praticamente invadido o meu quarto!
Quando me refiz do choque, descobri quem tinha esmurrado a minha janela. O Paulo Netto, meu companheiro de quarto, se esbaldava em cima do trio, fazendo coreografia e tudo. Sem camisa, ou melhor, com a camisa na cabeça como se fosse um turbante, ele estava eufórico e absolutamente enturmado com os músicos e as dançarinas.
Apesar de ter continuado com os pés dentro do quarto, estive até às cinco da manhã, praticamente dentro do trio elétrico. Não seria esta noite que eu conseguiria dormir.
Eu já tinha fechado as malas e estava saindo do banho quando o Paulinho chegou, rouco, cantarolando: - Acaboooooooou.... acaaaabou!
Ele parou na entrada do banheiro e ficou me olhando. Eu perguntei: - O que foi? E ele, na maior naturalidade, pergunta: - Será que ainda dá pra tomar um café da manhã?
Aquela era apenas a primeira parada da nossa viagem. Ainda tínhamos que chegar à nossa próxima base, uma cidadezinha simpaticíssima chamada Acari. De lá, seguiríamos alguns quilômetros e pousaríamos em duas pousadas separadas, na própria comunidade das Gargalheiras. Em condições, eu diria, bem rústicas.
Muita coisa aconteceu depois disso. Foram oito dias de filmagem. E de histórias inesquecíveis. Se um dia eu tiver coragem, volto aqui e conto o resto. Combinado?