quinta-feira, 26 de março de 2009

Roberto Berliner e a afinação da publicidade.

Devotado à direção de longas-metragens desde que o documentário "A pessoa é para o que nasce" lhe garantiu o respeito dos críticos e o carinho do cinema, Roberto Berliner - chamado de "Robertinho" pelos colegas - tem um currículo publicitário invejável. Em sua trajetória por comerciais, a música foi uma protagonista constante. Quem quisesse um reclame azeitado no som, com um medalhão da MPB em cena, chamava Berliner.
E ele diz não gostar muito de fazer juizos de suas escolhas estéticas.
- Na verdade, acho que explicar meus filmes ou meu estilo é uma coisa esquisita, talvez desnecessária. Ou se entende o que a gente faz ou não. Ou se gosta ou não. O papel do cineasta é fazer filmes, o da crítica é criticar, explicar... Os filmes são feitos pra serem entendidos. Se a gente tiver que explicar, é porque a gente errou. Acho que alguém já falou isso antes. De qualquer maneira, vamos lá...

Teu nome é bastante associado a projetos que passam pela música, inclusive na publicidade. De que maneira a música (MPB, em especial) se tornou uma ferramenta importante para os teus filmes publicitários?
ROBERTO BERLINER: Acho que sempre fui muito ligado à música e ao futebol. Quando pequeno, eu queria ser baterista e jogar no meio-campo. Acabei no cinema. Ouvi muita música boa na minha infância e na adolescência, nos anos 1960 e 1970. Era uma época muito fértil. Se eu fosse listar os nomes, não ia sobrar espaço. MPB, samba, rock, punk, black, tudo que tinha de bom. A música sempre foi parte importante da minha vida, desde a Rádio Mundial, do Big Boy, das festinhas. E todos os grandes nomes da MPB dessa época, que representaram uma ruptura não só musical, mas também de comportamento, acabaram me influenciando muito.

Como?
BERLINER: A minha formação inicial é de videomaker, ou seja, eu fazia tudo sozinho. Um dos meus princípios era quebrar as convenções sempre. No início dos anos 80, fundei a ANTEVÊ (cujo nome brincava com a ideia de ver antes, de ser uma anti-TV). Era dentro do Circo Voador e filmei, em VHS, tudo que acontecia lá dentro. Naquela bagunça, eu tinha espaço pra fazer o que quisesse. E fazia. Filmava do palco, no meio dos músicos, usava a câmera como se fosse um instrumento. Eu me sentia parte integrante da banda. Usava ao extremo os poucos recursos que tinha: movimentos de câmera, edição muito picotada e só. Era a minha música sobre as músicas das bandas. As imagens e os cortes tinham que estar integrados de alguma forma ao que a música sugeria. Ao mesmo tempo, eu documentava o que estávamos fazendo ali quase que diariamente. Então, era música e documentário juntos. Aos poucos, foi chegando gente e aquilo virou um núcleo, eu fui virando diretor de clipes e documentários. Daí para a publicidade foi uma questão de tempo. Eu não esperava virar diretor. Eu era ator, seguidor do Asdrúbal. Nem imaginava entrar no mercado da propaganda. Só entrei por causa desses trabalhos e pelas mãos do Paulinho Peres (editor do CINEMA CURTO) e do Toninho Lima. Acho que eles viram um documentário que fiz sobre Angola e alguns clipes e me chamaram.

Outra marca relacionada à "grife Berliner" é a relação de seus comerciais com a estética documental. De que maneira as ferramentas do documentário, seja no campo do cinema-verdade ou do cinema direto, podem servir para uma campanha publicitária na divulgação de uma marca ou produto?
BERLINER: Antes do circo voador, na faculdade, eu fazia documentários em super-oito. Desde que comecei a fazer propaganda, queria fazer publicidade-documentário, mas essas idéias não pegavam. O documentário propõe um mundo real, personagens reais, vida como ela é. O que aproxima o filme e o produto da verdade, e eu sempre acreditei que a verdade era a melhor maneira de vender, mesmo quando o personagem não está dizendo o texto exatamente da maneira que a agência e o cliente queriam. As falhas na luz e no cenário fazem parte desse tipo de filme. É preciso sujar a estética da publicidade e isso está acontecendo de um tempo pra cá com mais frequencia. Fiz também falsos documentários para trazer o tom real ao filme. Gosto do real, gosto do imprevisto que o documentário traz. Mas não usei cinema direto em propaganda, pelo menos até hoje. Mas, durante muito tempo, o documentário esteve meio fora de moda. E como a publicidade sempre viveu do que dá certo, da venda de um estilo de vida e de um tipo de beleza que pouco tem a ver com a gente, não sobrava espaço para o real. Até pouco tempo atrás, por exemplo, era muito difícil botar um negro em um filme de propaganda. Era um tema que precisava ser longamente debatido. E quase nunca era aceito. Incrível. E embora tenha melhorado, acho que ainda é assim. O mundo era, e é, dos brancos, que queriam ser loiros. Afinal, os negros são pobres e não compram. Quem queria ser negro? Talvez agora com o Obama a coisa mude um pouco. Tomara.

De que forma a publicidade lapidou sua maneira de se relacionar com o outro, com os entrevistados, a partir do filtro da câmera?
BERLINER: A publicidade influenciou muito os meus documentários. Acho que apurei a estética. O tipo de documentário que faço vem sempre com exaltações aos personagens. O que tento fazer é mostrar que essa gente pode estar na mídia de um jeito tão bacana quanto nossas celebridades. Trato os meus documentários de uma forma bem parecida com que faço os meus filmes de propaganda. No fundo, estou vendendo essa gente, seu estilo de vida, sua inteligência, para o grande público. Os personagens são meus parceiros nessas empreitadas.

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"Afinação da Interioridade"
Melhor vídeo - Festival do Minuto 2001.

Existe um preconceito de que um cinema mais "clean", mais "clipado", seria uma extensão da publicidade na tela grande - coisa que a crítica costuma encarar com certo desdém.
BERLINER: Não associo o clipado com o clean. O clean vem da publicidade. O clipado vem do videoclipe e da videoarte. As imagens mais rápidas são consequência da maior capacidade que hoje temos de absorver e entender o que se passa em menos tempo. Os cortes rápidos trazem um tipo de sensação ou emoção ao que se passa que, se bem usado, pode ser muito legal. Nossa educação visual é muito mais apurada. Nos anos 1980, quando os videoclipes começaram a fazer muito sucesso, o cinema e a propaganda foram atrás e começaram a fazer coisas parecidas e muitos diretores de clipes foram para o cinema e para a publicidade e vice-versa. Foi o meu caso.

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O que a publicidade aprendeu com o cinema?
BERLINER: A publicidade bem feita atingiu sim o nível do cinema bem feito. Mas temos de tudo. A publicidade tirou do cinema a técnica, idéias, linguagem, tudo. Mas devolve tudo isso para uma apropriacão, uma evolução do cinema. Por isso as referências são tão importantes. É assim que se evolui.

Você ainda consegue se dedicar diretamente à direção de comerciais em meio a processos de roteiro e à preparação de longas?
BERLINER: Não. Eu consigo fazer comerciais sempre que posso, mas tem partes no processo de um longa em que eu preciso estar presente, como agora que estou fechando o roteiro. Mas, ano passado, fiz uma grande campanha pra Brasil Telecom, da Leo Burnett. Não pretendo largar a publicidade. É parte da minha escola e do meu ganha-pão. E, além de tudo, eu gosto do processo, da troca, da rapidez, da possibilidade de estar em contato com equipe e equipamentos de alto nível. E a troca com a agência também é muito positiva.

Que comerciais você destacaria no teu currículo publicitário?
BERLINER: "Suicídio", para Polícia de São Paulo, Free-Jazz, Banco Nacional de Cinema, Coca-Cola, Sony Ericsson e a última campanha para a Brasil Telecom no ano passado.

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Que comerciais de outros realizadores mais te influenciaram?
BERLINER: Os que me vêm à cabeça assim de primeira são os antigos filmes dos cigarros "Continental" dos anos 1960 ou 1970 que eram documentários com trabalhadores de classe baixa filmados Brasil afora. Era como se fosse um documentário mesmo. Lembro também de outra campanha do Continental, com músicas famosas como “Que maravilha”, do Jorge Benjor e "O portão", do Roberto Carlos. Eram filmes emocionantes.

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N.R. Este comercial de Continental foi dirigido por Olivier Peroy em 1976. Nele, o cara que volta pra casa é Herson Capri, a mãe é Carmen Silva e a namorada é Nadia Lippi.

Tem um monte de outros filmes de que gosto. Uso muito as referências antes de filmar. Acho que elas são fundamentais não só no cinema ou na publicidade, mas na literatura, na arquitetura, na vida. Então, pesquiso muito antes de filmar pra ver como outros fizeram. Essa quantidade de informações me ajuda, me dá segurança na hora de filmar. Mesmo que seja pra fazer o oposto do que já foi feito.

Como está o projeto "A senhora das imagens"?
BERLINER: É a minha primeira ficção, baseada na vida da Dra. Nise da Silveira, uma psiquiatra alagoana arretada, que sempre foi contracorrente. Entrou na faculdade de Medicina na Bahia aos 15. Era a única mulher no meio de 157 homens. Depois, ela veio para o Rio, onde virou comunista e foi presa junto com Olga Benario, Graciliano, entre outros. É na prisão que começa a entender um pouco mais do que se passa com os esquizofrênicos quando estão internados dentro de um hospital e perdem sua identidade, seus objetos, suas roupas. Esses esquizofrênicos serão seus pacientes oito anos depois, quando volta a trabalhar no hospital. Ali, ao contrário dos outros psiquiatras que olhavam para as novas técnicas, novos aparelhos de eletrochoques, lobotomia, insulinoterapia, ela olhava no olho dos pacientes e se aproximava deles. Enxergava neles um espírito muito mais elevado que os ditos "normais". E por se recusar a apertar o botão do eletrochoque, Nise se vê isolada dentro do hospital. Essa mulher baixinha, violenta, que ama acima de tudo os loucos e os animais, essa obsessiva que não liga para valores materiais, essa brasileira espetacular, é o tema do filme. Uma missão complexa, dada a importância e a força dessa mulher, que não se dizia psiquiatra. Ela preferia ser chamada de psicodélica. O filme vai se passar nas locações reais, no mesmo hospital, no Engenho de Dentro e em outras locações pelo Rio. Drica Moraes vai ser a Nise. É a única já fechada no elenco. André Horta vai ser o diretor de fotografia.