quinta-feira, 7 de maio de 2009

Vicente Amorim - rigor não é talento.

Recém-chegado ao formato DVD, "Um homem bom" ("Good"), com Viggo Mortensen, marcou a estreia do diretor Vicente Amorim no cinema internacional, após suas primeiras experiências em longas-metragens: "O caminho das nuvens" (2003) e "2000 Nordestes" (2000). Preparando-se para filmar "Corações sujos", baseado na obra homônima de Fernando Morais, Amorim fez carreira na publicidade, pilotando comerciais e hoje é sócio e diretor da Mixer . No papo a seguir, ele fala de seu tráfego entre essas duas modalidades do ofício de filmar: contar histórias a partir de um compromisso com a arte de narrar e dirigir tendo como meta fazer vender um produto.

Como a publicidade aproveitou a tua experiência com o cinema e vice-versa? Como as tuas influências cinéfilas (os filmes que mais te alimentaram) migram para a publicidade quando você dirige comerciais?
Eu fui um diretor de publicidade muito bissexto. Dirigi comerciais no começo dos anos 90, na Made for TV, com o Paulo Peres como atendimento, depois fiquei quase quatro anos sem fazer um comercial sequer (por estar envolvido com longas e por estar fazendo TV), voltei por uns dois anos, na Tibet (de novo com o Paulo Peres), parei mais uma vez por três anos, para fazer o 2000 Nordestes e O Caminho das Nuvens, e voltei a dirigir comerciais entre 2003 e 2006 na Mixer, parando, de novo, para me dedicar a Um Homem Bom e aos outros projetos de longa da Mixer. Até o começo dos anos 90 o mundo publicitário era, pra mim, um mistério, até que, por causa do Plano Collor, eu (e mais um monte de gente) fui jogado de sopetão neste mundo. Vale lembrar que vivia-se a "farra" dos videoclipes nesta época e eu fiz vários - alguns até fora do Brasil. Talvez, nos videoclipes eu tenha tido a oportunidade de me testar esteticamente de um modo mais solto do que na própria publicidade. Isto tudo posto, por ter minhas referências visuais muito calcadas nos filmes que vi ao longo da minha vida, devo dizer que, se houve influência, foi muito mais na mão cinema-publicidade do que vice-versa. Os meus melhores comerciais (uns 3, rsrsrs) sempre foram comerciais onde o forte era a atuação; acho que meu amor por Resnais, De Sica e Altman ajudaram muito nesta hora. Esta via se inverte para mim (vira publicidade-cinema) do ponto de vista técnico. Em publicidade temos acesso a brinquedos caros e a responsabilidade de entregar um produto de qualidade impecável num espaço de tempo muito curto. Acho que isto tem muito a ver com a melhora técnica e estética do cinema brasileiro nos últimos dez, quinze anos. Não se pode, no entanto, deixar esta "qualidade" virar uma prisão. Rigor não é talento.

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Alguma mais você se sentiu dirigindo cinema quando fazia algum comercial?
Não. Embora no cinema tenhamos uma responsabilidade para com nós mesmos, o público e os produtores, o processo é (mesmo num filme com pretensões comerciais) muito mais autoral, mais solto. Na publicidade a vontade e o briefing da agência e do cliente são determinantes. Um bom diretor de publicidade tem que ter (muito) talento, mas é um cão de aluguel.

"Um homem bom" ("Good") acaba de sair em DVD. Como você avalia a tua experiência como realizador no cinema internacional? Como você avalia a carreira de "Um homem bom" no exterior?
É cedo para avaliar a carreira de Um Homem Bom no exterior, pois, por estas maluquices da distribuição independente, embora tenha saído em DVD no Brasil dia 29/04, ele só está saindo na Europa agora (foi lançado, com ótimas críticas, na Inglaterra há duas semanas e sai na Espanha, com 80 cópias, no dia 22 de maio, e ainda está abrindo em muitas praças nos EUA, por exemplo). O que rolou até agora foi ótimo, a receptividade ao filme foi muito boa.
Eu nunca pensei em ser "diretor internacional", nem sei direito o que isto significa. Na prática foi uma experiência ótima. Poder contar uma história de época, mas com reverberações sobre o mundo de hoje, com um elenco de primeira e com o quádruplo de dinheiro do meu filme anterior não podia ser ruim. Se vierem mais histórias como essa para contar estarei dentro, mas fazer filme estrangeiro por fazer, isto não.

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O que Viggo Mortensen e Jason Isaacs te ensinaram sobre a relação com atores em um set em língua inglesa?
Aprendi muito com eles. Eles me ajudaram a não temer a matriz teatral do material original e a procurar uma "arquitetura da palavra" com as quais não estava acostumado. Meus projetos anteriores eram muito "cinematográficos", no sentido de terem pouco diálogo, de serem filmes mais visuais e menos "falados". Foi um privilégio trabalhar com os dois. Ao mesmo tempo, devo dizer, foi sempre uma via de mão dupla. As histórias de horror que alguns diretores têm com atores hollywoodianos não aconteceram neste filme. Os dois (e o resto do elenco) estavam sempre muito ávidos de direção e gostavam do caminho que eu apontava, desde os ensaios na pré-produção (que, aliás, foram fundamentais).


Como está o projeto da adaptação de "Corações sujos"? Quando você filma? Há algum outro projeto seu, para a TV ou para cinema, antes de seu mergulho no universo de Fernando Moraes?
Corações Sujos, que tem roteiro do meu parceiro de mais de vinte anos David França Mendes, está com metade de seu orçamento captado. Esperamos poder filmar ainda este ano. Já começamos a fazer casting no Japão e os diálogos japoneses foram adaptados pela mesma escritora que fez o Cartas de IwoJima. A guerra dentro da colônia japonesa em São Paulo que começou depois da Segunda Guerra Mundial entre vitoristas e derrotistas é a base do livro do Fernando Morais e do meu filme. Vai ser um thriller com a fundação estrutural de um filme de amor - um filme passado nos anos 40 que fala de assuntos dos mais contemporâneos: racismo, fundamentalismo, intolerância e a manipulação da verdade. Acabei hoje a revisão do último tratamento e estou muito confiante.
Tenho dois outros projetos de longa rolando (um deles, de novo, com Wagner Moura) e um projeto de TV em parceria com a França que ainda está em desenvolvimento. Conseguir grana nunca é fácil, mas está sendo um ano animado!