domingo, 14 de junho de 2009

O redator Zoca Moraes lembra o amigo Zé Rodrix.

O Zé que eu conheci.

Quando criança minha mãe não permitia novela em casa.
No lugar de “O Direito De Nascer”, assistíamos à “Viagem Ao Fundo Do Mar” e “Manda Chuva”. Ao invés de “A Deusa Vencida”, acompanhávamos a saga da Família Robinson na farsa intergalática representada pelos mais de 80 episódios de Perdidos no Espaço.
Estamos falando dos anos 60 em toda sua extensão quando os dramalhões eram exibidos por duas emissoras extintas: Tupi e Excelsior.
Basicamente, sintonizávamos a TV Record.
Dos Festivais da Canção, da Sessão das Três, do Pullmann Jr, da Família Trappo, da Praça da Alegria, do Capitão 7 e tantos outros clássicos desaparecidos.
A Globo sempre foi uma alternativa alienígena para mim, o que pode soar estranho vindo de alguém que trabalha em propaganda.
Por isso, posso afirmar que foi sem querer que “topei” com Zé Rodrix pela segunda vez.
Apesar da proibição oficial e de minha repulsa por essa TV produzida em terras estranhas, simplesmente adorava o tema de “O Espigão”, criado pelo Zé.
Por diversas vezes comentei sobre isso com ele.
“O Espigão” foi uma novela levada ao ar no início da década de 70, para o horário das 10 da noite.
Não conheço a trama, mas me permito dizer que a trilha de mesmo nome, composta por um Zé, pós Sá e Guarabira, era monumental.
Por que me refiro a um segundo encontro, sem ter, sequer, relatado o primeiro?
É o que farei agora.
Foi nas páginas da Rolling Stone.
Sim, entre 72 e 73, um influente grupo de jornalistas cariocas, comprometidos com a contra-cultura, publicou essa que já foi uma revista extremamente relevante, sobretudo quando ainda sediada em São Francisco.
Luis Carlos Maciel, Ana Maria Bahiana e Ezequiel Neves capitaneavam o projeto pirata, numa época em que todo jovem roqueiro fazia qualquer coisa para possuir um bootleg.
Eram tempos de ditadura Médici, mas, apesar disso, a Polícia Federal, governos estaduais e municipais, não organizavam espetáculos histéricos de caça à pirataria.
Foram 36 números.
Em alguns deles, li sobre o rock rural.
Mas para mim o Zé sempre esteve muito além dessa classificação que tragou os talentos de Luis Carlos Sá e Gutemberg Guarabira.
Mais do que Mestre Jonas E A Baleia, a maior expressão das virtudes musicais de Zé, em minha opinião, sempre foi Blue Riviera, que meu amigo George Alonso acreditava ser uma homenagem ao desaparecido bar na esquina da Consolação com a Paulista.
Bobagem, pois acredito que quando composta, Zé ainda vivesse no Rio.
Meu próximo encontro com Zé já seria nos anos 80.
Em 1987 fui trabalhar na agência de Mario Cohen, a Futura.
Perfeccionista que era, Mario fazia questão de só contratar os serviços dos melhores fornecedores e, entre as produtoras de som, a melhor delas era, sem dúvida, A Voz Do Brasil, do Zé e do Tico.
Na verdade, ainda não era A Voz, mas a Áudio Patrulha.
Poucas vezes na história da associação humana nós, os míseros mortais, tivemos a oportunidade de testemunhar a sociedade de duas criaturas tão geniais.
Tico era meu ídolo desde o Joelho de Porco, em sua formação original, de 1972, com Prospero Albanese na bateria e vocais.
Apesar de baixista, é de Tico a voz que se ouve nos refrões de “Mardito Fiapo de Manga”, registrada no primeiro e definitivo álbum da banda: São Paulo, 1554 / Hoje.
Embora fossem grandes músicos, Zé e Tico mais se assemelhavam a Stephen Fry e Hugh Laurie, do que a Lennon e Mccartney.
Sobrava-lhes talento.
Individual e coletivamente.
Afinal, quem se atreverá a dizer que Casa No Campo é harmônica e melodicamente, inferior a "Let It Be"?
Ou que Aeroporto de Congonhas e Trombadinhas são menos rocker do que "I Saw Her Standing There"?
O segredo do sucesso da dobradinha Zé e Tico não residia em sua imensa capacidade de produção musical marcada por uma singular e rica originalidade.
Mas no fato de que os dois eram completa e absolutamente engraçados.
E politicamente incorretos.
Muito incorretos.
Lembro de que numa reunião de briefing com o cliente Pirelli, num esforço para quebrar o gelo que se estabelece no início desses encontros, Tico disse ter lido que Fred Mercury se submetia, periodicamente, à lavagens estomacais para a retirada de semen que se acumulava no fundo de seu aparelho digestivo.
Como a biografia do front-man do Queen não revela qualidades contorcionistas no finado, supõe-se que o resultado final de uma ereção prolongada pertencesse a outrem.
Na seqüência, Zé deu o troco, afirmando saber que Rod Stewart costumava sorver falos alheios, mas que não se considerava perobo pela prática dessa oralidade.
Nessa linha anarco-sexual, Zé e Tico cometeram diversos atentados contra as recepções de incontáveis agências.
Por alguma razão que até hoje me escapa, a Norton era uma das vítimas prediletas.
Lá, enquanto aguardavam serem convocados pelo RTV, ou por quem de direito, introduziam sob as revistas dispostas na mesa, ali colocadas para a conveniência dos clientes e visitantes, exemplares de Honcho e outros títulos da pornografia gay, editados em inglês.
Parece que na velha Norton o idioma ingles era muito apreciado.
Os melhores profissionais do jingle de todos os tempos não se levavam a sério.
Tanto é assim que se apresentavam como o “Preto e o Judeu”.
Ligeiramente fascista, mas não a ponto de incomodar, o bom humor de Zé e Tico era indomável como suas personalidades.
Zé era agitadíssimo e Tico, mais bonachão.
Exatamente por ser boníssimo e generoso, Tico se permitia certos luxos, como o de gozar da miséria, como forma de expurgar nossos próprios preconceitos, permitindo que eles surgissem a nossa frente, crus e cruéis, fazendo-nos refletir sobre nossas maldades ocultas e impronunciáveis.
Duvido que esse episódio tenha acontecido de verdade, mas entre perder a piada e perder o mendigo, Tico preferiu assegurar o primeiro.
Disse que, certa vez, parado num “farol” (semáforo para os paulistanos), aguardando o sinal verde, aproxima-se de seu carro um garotinho que lhe pede uma esmola para poder comer.
Como eram 10 da manhã, Tico teria respondido assim:
Eu não vou te dar dinheiro porque depois você não almoça!
Pessoalmente, não creio nesse episódio, mas no lançamento de anões durante uma festa em sua casa, nisso aposto todas as minhas fichas.
Outra das façanhas contadas por Tico estava a de atormentar seu avô, simulando assediá-lo sexualmente.
Tico era louco e gênio da raça.
Além de agitado, Zé se irritava com a incompetência e a burrice.
Acho que foi em 89, ou 90.
Estávamos gravando a trilha e locução para uma campanha criada por mim e pelo Valdir (Bianchi).
O produto era Vodka Wyborowa.
Como o texto falado era tremendamente irônico e como se tratava de um destilado, decidimos trazer um conhecedor do assunto para fazer as falas: Paulo César Pereio.
O primeiro problema a irritar o Zé foi a falta de pontualidade do grande ator gaúcho.
O que deveria ser gravado na parte da manhã, começou logo depois da siesta mexicana, lá pelas três da tarde.
Tudo porque o Pereio não entra em avião e veio de ônibus do Rio.
Se o fuso horário já não fosse motivo mais do que suficiente para provocar urticária no Zé, ao que tudo indica, Pereio fez um test drive no objeto filmado e não falava coisa com coisa.
Mas o que deixou o Zé enlouquecido não foi nem a desatenção do astro de Eu Te Amo ao, involuntariamente, chutar e inutilizar um microfone da Voz.
O que tirou o Zé do sério foi o Pereio evadir-se da responsabilidade, referindo-se ao acidente com uma pergunta dirigida ao maestro Rodrix:
E aí, fresnel?
Até hoje não entendi o por quê da cólera do Zé e o significado de fresnel.
Zé tinha muitos filhos e uma linda mulher que, ao que parece, mais do que herdeiros, deu-lhe um norte magnético.
Contudo, nem todos os filhos proviam de uma mesma matriz.
Vez ou outra, apareciam em sua vida, desconhecidos que o chamavam de papai.
Tudo por obra de sua existência anterior.
Como astro pop que foi, Zé se encontrava sempre “na estrada”, excursionando por “esse mundão afora”, como dizia aquele velho comercial das Antenas Plasmatic.
Da última vez que topou com uma potencial Sandra Arantes do Nascimento, Zé disse que se tivesse que realizar o teste de DNA para provar paternidade, faria como Pelé e enviaria sangue de cachorro.
Tico morreu onze anos antes do velho companheiro.
Desfaleceu durante uma apresentação na Newcomm Bates, de Roberto Justus, na presença do próprio.
Perdeu a consciência e não acordou mais.
A dinastia Terpins respeita uma tradição que se repete geração a geração: cedo ou tarde, seus membros masculinos são fulminados por doenças cardíacas.
A despeito desse histórico médico familiar, Tico nunca se inibiu diante de um, ou dois pastéis recheados de carne moída, ovos cozidos e azeitonas verdes, que consumia diariamente, como assíduo freqüentador de uma pastelaria nas cercanias da produtora.
Para Tico, Volte Sempre, era um slogan quase que sagrado.
Num dia qualquer de 1998, os pastéis de carne, finalmente, vieram cobrar a fatura.
No entanto, uma outra versão afirma que Tico não suportou a possibilidade de ter que gravar uma fita demo de Justus que, já naquela época ameaçava o mundo civilizado com seu repertório de churrascaria rodízio.
Se houvessem permanecido na propaganda, Zé e Tico teriam perecido na desolação em que se transformou nossa profissão, onde efeitos especiais substituem a idéia criativa, onde os pré-testes eliminam a surpresa e a emoção e, principalmente, onde as trilhas em inglês, francês e até em japonês, tomaram lugar da música popular brasileira, num país que, ano passado, comemorou o cinqüentenário da bossa nova.
A última vez que vi o Zé foi na Livraria Cultura do Shopping Villa Lobos, durante o lançamento de um livro.
Eu estava lá por acaso e trocamos breves palavras.
A derradeira conversa que tive com Zé foi há muitos anos, antes de ele deixar a Voz e iniciar sua curta, porém, também muito bem sucedida carreira como escritor.
Nessa conversa, tão prazerosa quanto qualquer papo com o Zé, ele me confessara que desconfiava que jamais morreria.
Antes de rir dos outros, ou de si mesmo, Zé tirava sarro da morte.
Ele apenas esqueceu que sua transitoriedade havia sido decretada quando escreveu esses versos imortais:
....... que vai mantê-lo preso na baleia até o fim da vida,