quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Tony Scott - "Eu pinto com a câmera"



Tony Scott no set de "Sequestro do Metrô 1 2 3 "
Carinhoso ao falar de sua relação com a publicidade, Tony Scott tem comemorado seus 40 anos de cinema promovendo o lançamento internacional de “O sequestro do metrô” (“The taking of Pelham 1 2 3”), que estreia nesta sexta-feira. Irmão mais novo de Ridley Scott, diretor de “Blade runner – O caçador de andróides”, Scott tem alternado sua agenda entre projetos para Hollywood e para o mercado publicitário. Em entrevista exclusiva para Rodrigo Fonseca do CINEMA CURTO, o diretor revela manhas sobre como se dirige um comercial.

O que um diretor de superproduções aprende rodando comerciais?
TONY SCOTT: A publicidade é uma maneira de afiar o meu olhar, sobretudo quando se filma pensando em imprimir estilo pessoal aos filmes. Por isso ainda rodo comerciais e projetos para a TV.

Em 40 anos como o cineasta, o senhor alternou blockbusters como “Top Gun” e cults como “Amor à queima roupa” e “Fome de viver”. O que mudou no cinema desde seu primeiro filme, “Loving memory”?
SCOTT: Se existe algo de diferente, é a certeza da diferença formal entre filmar para o cinema e filmar publicidade. Dirigir um comercial é uma corrida morro acima: é preciso velocidade. Dirigir cinema é escalar uma montanha: é necessário paciência. Comecei a filmar após estudar Belas Artes, raciocinando com a lógica das artes plásticas. Essa lógica de contemplação se aplica bem a um longa-metragem, mas nem sempre atende àquilo que a publicidade exige.

O tipo de cinema em que o senhor e seu irmão, o diretor Ridley Scott, militam divide os críticos, que apontam um flerte declarado de seus filmes com a linguagem dos clipes e da publicidade. É dessas fontes que vêm as referências visuais de sua obra?
SCOTT: Em 1969, quando dirigi meu primeiro filme, o média-metragem “Loving memory”, eu havia acabado de sair da Escola de Belas Artes, onde estudava pintura. Quando comecei a filmar, eu tentei problematizar a mesma questão que me dragava quando eu era pintor: captar o movimento. No cinema e na publicidade, eu caço o movimento. No passado, eu era um artista plástico que filmava nas horas vagas. Hoje, eu pinto com a câmera, pincelando a realidade.

A realidade pincelada por “O sequestro do metrô” é a da crise financeira internacional contemporânea? Afinal, o terrorista vivido por Travolta foi um investidor de Wall Street. Seu filme é uma alegoria do colapso financeiro mundial?
SCOTT: É engraçado essa questão da crise porque parece que a antecipamos. O filme foi rodado bem antes de a crise começar, partindo do texto original, que vem do romance homônimo de John Godey, popularizado nos anos 1970. Quando aceitei filmar “O sequestro do metro”, deixei claro que só rodaria o longa se pudesse rodar do meu modo, sem alusões ao filme de 1974, que tinha mais humor na figura de Walter Matthau. O meu “sequestro” é uma história de vingança. Fizemos uma pesquisa sobre a realidade do metrô nova-iorquino que nos serviu base e eu busquei uma olhar para aquele mundo em que pudesse me reinventar em relação aos meus longas anteriores. Não é um filme de ação clássico. É um veículo para um estilo mais pessoal. No cinema, na direção, imprimir estilo é o apoio que um cineasta pode dar a seu elenco.

Nos últimos cinco anos, seu estilo tem sido comparado a “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles. O senhor se incomoda com a comparação?
SCOTT: Foi “Cidade de Deus” que inspirou o filme que rodei no México: “Chamas da vingança”, cuja câmera foi o fotógrafo de Meirelles, César Charlone. Eu vi “Cidade de Deus” várias vezes e fiquei impressionado com o trabalho de Charlone. Por isso decidi que deveria trabalhar com ele. Além de Charlone, trabalhei mais de uma vez com um dos atores de “Cidade...”: Charles Paraventi.

Em seus comerciais, o senhor se acostumou a empregar astros do primeiro escalão de Hollywood. Já no cinema, o senhor tem estado fiel à Denzel Washington.Por quê?
SCOTT: Denzel é um sujeito que expressa muito com poucos gestos. Quando tenho ele ao meu lado em um filme, fica mais fácil para mim me concentrar nos exteriores. O olhar de Denzel dá conta do que é interiorizado, do que não é dito.