sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Onde vive Spike Jonze?



Selvageria. Spike Jonze, que atualmente lota cinemas nos EUA com “Onde vivem os monstros” (“Where the wild things are”), aprendeu a dominá-la filmando publicidade. Basta ver seu anúncio para a GAP para compreender sua manha com a agressividade. Dizem que, na vida real, o diretor de “Quero ser John Malkovich” é um banana. São palavras de sua ex-mulher, a cineasta Sofia Coppola, que o retratou na figura de um fotógrafo moleirão em “Encontros e desencontros”. Bom, a intimidade é deles. Já o brilhantismo de Jonze em seu novo longa-metragem, cujo faturamento nos EUA já chegou a US$ 64 milhões, é um presente nosso. Confira a seguir o trailer da produção, que consumiu um orçamento de US$ 80 milhões. Trata-se de um dos filmes obrigatórios de 2009.
Produzido por Tom Hanks e embalado a muito pop e rock, “Onde vivem os monstros” é um diálogo personalíssimo de Jonze com o romance infanto-juvenil homônimo de Maurice Sendak, recém-lançado no Brasil pela Cosac Naify. Na telona, a partir do roteiro de Dave Eggers, o lirismo fabular do texto original vai, cena a cena, dando lugar a uma ode a melancolia. A tristeza esculpe o mundinho metade realista, metade onírico onde vive o pequeno Max (Max Records, o melhor ator mirim revelado desde Haley Joel Osment).
Max é um guri solitário, que vive mendigando afeto. Usa uma fantasia branca de animal, em trajes de traços lupinos, para chamar a atenção alheia com sua estranheza. Um dia, ao levar uma bronca da mãe (Catherine Keener, atriz-fetiche de Jonze), Max foge de casa e vai parar em uma terra imaginária, para a qual viaja em um barquinho capaz de resistir a tormentas. Nesse lugar encantado, existem monstros gigantes, com feições dignas de “Vila Sésamo”. O mais exótico desses seres atende pelo nome de Carol (o personagem é dublado em inglês pelo Soprano James Gandolfini). Carol é a mais forte das criaturas do reino mágico onde Max recebe toda a sorte de paparicos. O nome do monstro é uma espécie de metáfora: Carol é a encarnação da força vital da mãe de Max. Aos poucos, o menino vai conquistando essa força hercúlea para si, construindo um laço afetivo que arranca lágrimas e cria sequências de um refinamento cenográfico e fotográfico único.
O Jonze esteta de filmes comerciais se recria na telona, dez anos depois de sua consagração com “Quero ser John Malkovich”. É bom ficar atento para as próximas novidades desse realizador que é símbolo da pós-modernidade nos anos 2000.
"Onde vivem os monstros" estreia no Brasil só no dia 15 de janeiro.

Rodrigo Fonseca, um dos editores do Cinema Curto, assistiu em Nova York ao novo filme de Spike Jonze.