terça-feira, 16 de março de 2010

Fred Coutinho vai de ônibus, novamente.

Deveria ser um curta metragem. Virou um longa. Tecnicamente era simples. Tratava-se de pegar um ônibus que sairia às dezenove horas da rodoviária. Como era sexta-feira de carnaval, e eu estava em Ipanema, pegaria um taxi hora e meia antes da partida do ônibus. Acontece que terminei o que estava fazendo mais cedo, e resolvi sair mais cedo ainda. Com tempo de sobra, resolvi pegar um ônibus. Simples. No começo tudo ia bem, mas o trânsito engarrafou em cima do viaduto que leva ao túnel Santa Bárbara. O ônibus estava tão cheio que o motorista nem parava para pegar passageiros. Pensei que era uma boa hora para cair fora e pegar um táxi, o Santa Barbara passou, eu saltei. Não passava um táxi. Então tive a ideia que me pareceu boa na hora: pegar outro ônibus até a rodoviária. O ônibus estava vazio, mas quando entrou no túnel Noel Rosa, tudo parou. Depois do túnel, piorou. Desci do ônibus para, mais uma vez, pegar um táxi. Não passava um. Eu estava na praça da Cruz Vermelha e resolvi ir a pé até a Central. Na hora me pareceu uma boa ideia. Não era perto, estava quente, eu carregava uma mochila, mas não queria perder o ônibus e na Central seria possível pegar um táxi até a rodoviária. Fui andando. Cheguei até a Central do Brasil e só passavam táxis cheios. Então resolvi pegar um ônibus que me deixasse mais ou menos perto da rodoviária, onde eu pudesse enfim pegar um táxi. Peguei um ônibus, desci três minutos depois para pegar um táxi que, claro, não havia. Não custa nada repetir: estava quente, eu estava cansado, a mochila estava pesada e sobretudo faltava meia hora para o ônibus sair. Fui correndo e pensando – que coisa ridícula, eu poderia estar na rodoviária há duas horas, agora estou correndo feito um idiota, neste calor infernal, com essa mochila pesada, fazendo sinais para táxis que não param, esperando ônibus que não passam, com risco de perder a viagem. Alguma coisa me dizia que havia uma lição nessa história toda, mas eu estava muito ocupado em correr para ficar com raiva de mim mesmo e foi neste momento que, saindo de uma rua, bem devagar e, sobretudo, vazio, vi um táxi, fiz sinal, ele parou. Tinha ar condicionado. Um minuto e meio depois estava na rodoviária. Algum tempo depois, descobri que havia mesmo uma lição naquilo tudo, e era bem simples: é melhor ver o tempo passar do que correr atrás dele.