terça-feira, 22 de novembro de 2011

Gus Van Sant. Again.

Personagens esquisitões e locações estranhas - dois "musts" nos filmes de Gus Van Sant. Neste "Inquietos", "Restless" no original, Van Sant conta a história de um garoto que não quer saber de nada na vida, largou a escola e vive com uma tia após um acidente que vitimou seus pais. O lance de Enoch (Henry Hopper) é penetrar e acompanhar velórios e, num deles, conhece a também maluquinha Annabel (Mia Wasikowska), uma paciente terminal de câncer. Pra fechar o triângulo, os dois convivem com o fantasma de um piloto kamikaze da 2ª guerra - Hiroshi (Ryo Kase).
Conversa vai, conversa vem e acabam virando namorados. Enoch fica muito próximo de Annabel e questiona mais do que ela seu tratamento médico. Assim o filme conquista o espectador, sem pieguices ou derramamento de lágrimas. Com tudo muito bonitinho, simpático e generoso com o público, "Inquietos" não precisa de mais de 91 minutos de projeção para encantar o espectador com sua história de amor.
O filme é dedicado ao genial Dennis Hopper, pai do jovem Henry, estreante no cinema.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Cacá Diegues: " Alguma coisa do futuro do audiovisual se encontra no YouTube"

Premiado pelo conjunto de sua obra no Festival de Cinema do Douro, encerrado em setembro em Portugal, Carlos Diegues foi o diretor escolhido por Erasmo Carlos para traduzir na língua do videoclipe a picardia de "Kamasutra", uma das faixas de "Sexo", o novo CD do Tremendão. Ator em filmes como "Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa" (1968) e "Os machões" (1972), Erasmo recicla seus dotes para interpretar no vídeo, que já está disponível no YouTube, espaço virtual que o diretor de "Bye bye Brasil" (1979) define como uma vitrine para o cinema do futuro. Preparando um novo longa-metragem, Diegues — que vai ganhar uma retrospectiva no Lincoln Center, em Nova York, em 2012 — conta como foi levantar a bandeira da liberdade sexual fora do cinema e fala sobre sua experiência com filmes publicitários.

"Kamasutra" brinca com o erotismo numa produção que tem as liberdades narrativas de um curta-metragem. Como foi o processo de traduzir a sexualidade, em sua diversidade, na linguagem do videoclipe?

CARLOS DIEGUES: Uma das bandeiras mais generosas da cultura dos anos 1960, de onde eu vim, foi a do fim do preconceito sexual. De lá para cá, a Humanidade recuou nesse particular, e acho que devemos insistir no ideário de um sexo desprovido de traumas, punição e interdições medievais. Aproveitei a ótima música de Erasmo e Arnaldo Antunes para fazer o elogio disso. Além de Erasmo e sua música, usei também o jovem comediante George Sauma, dando humor, leveza e graça ao assunto. O único clipe que dirigi antes desse foi "Exército de um homem só", para os Engenheiros do Hawaii.



No anos 1980 e 90, a MTV era a casa dos videoclipes. Hoje, o YouTube virou a sala de estar do formato. O que o YouTube representa para o cinema como vitrine?

DIEGUES: Gosto muito do que Caetano Veloso diz do YouTube: "Ele é uma lixeira onde você pode encontrar pérolas raras." Alguma coisa do futuro do audiovisual se encontra no YouTube, e só trabalhando muito com ele nós vamos descobrir o que é. Não creio que a juventude de hoje veja muito a MTV, como via no passado. A MTV se tornou conformista e muitas vezes chata, repetidora do que já está no resto da TV. Aí, é melhor você perder o dia no YouTube, procurando tanto o que tem na MTV como as pérolas raras do Caetano. Não tenho preconceito em relação às vitrines do cinema, não vejo muita diferença se meu filme vai passar numa sala de exibição, na TV ou na internet.

Como está a produção de seu novo longa, "O Grande Circo Místico"?
DIEGUES: O filme tem a ver, em parte, com o universo do videoclipe. Espero poder filmar no ano que vem. Por enquanto, ainda não começamos a montar a equipe. Mal começamos a escalar o elenco, que terá dois ou três atores estrangeiros. Hoje, o único ator confirmado é Lázaro Ramos.

Você dirigiu comerciais emblemáticos, como a campanha das raspadinhas com o Costinha. De que maneira a publicidade e o clipe refinaram as suas habilidades como realizador?

Diegues: Não tenho, nem nunca tive preconceito nenhum em relação à publicidade, uma arte de nosso tempo que merece respeito e aplicação, como qualquer outra originada do imaginário humano. Mas, entre o final dos anos 1980 e o início dos 1990, naquele dramático período pré e pós-Collor, quando a possibilidade de fazer cinema no Brasil chegou a zero, eu me vi obrigado a topar fazer qualquer coisa para sobreviver. Fiz muito comercial de varejo vagabundo, incluindo essa famosa campanha das raspadinhas, com o grande Costinha. E a gente se divertia muito improvisando paródias em cima do roteiro dado pelo cliente. Em tudo isso, eu procurava me empenhar como se fosse um filme meu mesmo, do qual eu pudesse me orgulhar sempre. O que nem sempre acontecia, é claro. Mas este empenho valeu à pena, aprendi muita coisa com a publicidade e acho que a publicidade também não tem do que reclamar de mim. Até hoje, quando aparece a oportunidade, faço alguns comerciais que me são oferecidos, com todo o gosto do mundo.