quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Felipe Joffily: " sou muito mais calmo no set hoje"


O diretor de "Muita calma nessa hora", que fez 1,4 milhões de espectadores, aproximadamente, fala de sua experiência no cinema e na publicidade.














De que forma o êxito comercial de "Muita calma nessa hora" mudou a sua imagem no cinema brasileiro? De que maneira o prestígio popular do filme modificou sua imagem no mercado publicitário?


No cinema minha imagem era o "Ódique?", tava tudo ali, resta saber que impressão ela tinha para os outros. Eu me via como um jovem inexperiente cineasta com muita paixão e determinação pelo que faço e acertei quando decidi investir tudo em mim mesmo e dizer, eu posso. Queria estabelecer uma relação com a minha geração de que uma câmera na mão e uma ideia na cabeça não era só papo de baixo Gávea. Com a visibilidade que tive com o "Ódiquê?", pouca mas determinante, consegui muitas coisas, motivar colegas que filmaram em seguida, me apresentar para o mercado como um diretor contratado e principalmente definir meu "DNA". O "Muita calma..." é o resultado desse investimento. No "Muita calma..." pude experimentar minha autoralidade a serviço de um produtor. A partir daí construí outra parte da minha imagem. Para aqueles que assistiram o "Odiquê?" é possível notar as semelhanças e ainda me relacionar a um cinema mais autoral. O "Muita calma" populariza e não mede as consequências, minha imagem se fortalece ao mesmo tempo em que se rotula pelo gênero. Fiz um plano de carreira visando um mercado em pleno crescimento. Ser um diretor contratado e a partir daí buscar as oportunidades de voltar a produzir independente. Acredito que assim posso explorar a dramaturgia além dos gêneros.
Para a publicidade sinceramente não senti muita diferença após "Muita calma...". Para os clientes que já orçavam comigo foi bom, reforçou o nível de confiança para ambos. Quanto a novos trabalhos, senti uma ligeira inclinação de alguns clientes principalmente nos chamados filmes de atores. Queria mais, gostaria de ter mais oportunidades em novos formatos, assim como foi com a campanha de Oi com o Bruno Garcia pra internet.



Que ferramentas estéticas do cinema publicitário você importou para a direção de suas comédias?

O tempo. Nada mais precioso que a observação da trajetória de uma piada. A publicidade nos obriga a pensar o tempo a favor e contra. A publicidade é um trabalho de encomenda e por isso esta sempre submetida ao critério dos outros, o que faz rir ou chorar é relativo. É preciso ter certeza do que está sendo dito e pra quem. Revisar o texto, as questões cênicas, atores e principalmente, ouvir. Na edição tudo é revisitado e por incrível que pareça o mesmo processo se repete.



Quais são os planos para "E aí, comeu?" em relação a cronograma de filmagem, locação, elenco? Como você define esse filme na sua lista de projetos pessoais para o ano?

Estamos em pré do "E aí, comeu?", começaremos a filmar em novembro pelo Rio de Janeiro, basicamente em locações. Quero uma comédia com ambientes e personagens realistas. É um filme sobre três amigos discutindo a guerra dos sexos em meio a suas crises existenciais e amorosas. É uma comédia pra ver de casalzinho. O filme tem como protagonistas Bruno Mazzeo, Emilio Orciolo e Marcos Palmeira. Além de Tainá Muller, Laura Neiva e Dira Paes. Vejo o filme para a minha carreira como mais um desafio, muita ansiedade, determinação e alegria. Pretendo não criar expectativas, a corrida por bilhetes é um veneno, o Casé é um puta produtor e sabe o que tá fazendo. Minha obrigação e compromisso são para com ele e tenho tido todo o suporte que preciso.

Qual foi a importância de levar o curta-metragem "Sobre o menino do Rio" para Cannes?

Estava afastado dos festivais de cinema desde o "OdiQuê?". Os festivais de cinema pra mim são uma espécie de diplomacia cultural onde discuto políticas cinematográficas e arte. O "Muita Calma..." teria uma carreira diferente, não via a possibilidade de festivais internacionais, a não ser os de língua latina ou de filmes brasileiros ao redor do mundo, como foram o Latino de San Diego e o Brasileiro de Miami. Precisava também reexplorar minha autoralidade, sabia que viriam "E aí, comeu?" e outros convites pela frente. Desengavetei um texto de uma autora que descobri em um blog (Ale Félix), marcamos de nos encontrar, adaptamos pra um curta, montei uma equipe, pré-produzi, rodei e montei em uma semana. Um filme que abordasse questões existencialistas na cidade maravilhosa. Queria estimular a curiosidade do mundo sobre a vedete do momento e abrir espaço pra questões do nosso cotidiano que ainda nos afligem. Um belo cenário, bons atores (Silvia Buarque e Sergio Malheiros) e uma cinematografia clássica, cinemascope PB. Tudo que a francesada gosta, bebi na fonte deles e deu certo. Fui pra Cannes e pirei! Acho que voltei pro Rio mais esperto e criativo. Abri a possibilidade pra outros festivais e conheci pessoas incríveis.

De que maneira a sua incursão no cinema modificou sua maneira de dirigir comerciais?

Sou muito mais calmo no set hoje. Não sofro das inseguranças dos outros, evito deixar decisões pra depois e meus clientes sem saber o que pretendo. Me sinto mais seguro com os talentos, ganhei a confiança deles e retribuo da mesma forma. Adoro trabalhar com atores e ajudar a resolver questões que viabilizem a produção.



Cite um comercial que você considere um marco na história da publicidade?
O Zico trocando uma coca pela camisa da seleção. Chupa Neymar!



N.R. Este filme adaptado de uma campanha protagonizada por um astro do futebol americano foi dirigido por uma lenda da publicidade e do cinema brasileiro: Carlos Manga